domingo, 15 de julho de 2012

Liberdade Interior

Nos tempos conturbados que vivemos, precisamos de aprofundar no conhecimento próprio, no conhecimento da humanidade e de o lembrar aos nossos contemporâneos.

No exercício de uma autêntica liberdade, necessitamos de coragem para procurar a verdade, para segui-la e para nos mantermos libertos em relação ao ambiente circundante, que tende a impor os seus modos e os seus comportamentos...

Um dos desafios que se nos apresenta, aos nossos contemporâneos e, particularmente, à juventude, consiste em aceitar não viver simplesmente na exterioridade das aparências, mas antes no empenho por desenvolver o interior como elo unificador do ser e do agir, reconhecendo a nossa dignidade de criaturas.

Hoje, como sempre, precisamos de não nos deixarmos aprisionar pelas cadeias exteriores – como o relativismo, a busca do poder e do lucro a todo o custo, a droga, relações afectivas desordenadas, a confusão ao nível do casamento, o não reconhecimento do ser humano em todas as etapas da sua existência...

São muitos os conceitos de liberdade em voga nos tempos actuais, mas nem sempre nos apontam o verdadeiro sentido dela, antes ao contrário, dão-nos definições erróneas ou equivocadas.

Consideramos que a essência da liberdade reside na liberdade interior, ou seja, é da nossa consciência que provém a vontade de agir exteriormente. Por isso, acto livre é aquele que é realizado conscientemente e por vontade própria, não em estado inconsciente, ou por coacção.

O filósofo Aristóteles, na sua obra Ética a Nicómaco, apresenta como livre quem tem em si mesmo o princípio para agir ou não agir. É o agente, ele próprio, que estabelece os motivos e os fins da sua acção, sem ser forçado por ninguém.

A propósito, recordamos a história verídica ocorrida na Europa no século XX, em que a personagem relata que os pais, um irmão e sua mulher tinham morrido nas câmaras de gás. Ele mesmo tinha sido torturado e submetido a inúmeras humilhações. Durante meses correu o risco permanente da câmara de gás, ou de ficar junto daqueles cujos corpos iriam ser levados aos fornos crematórios, para retirar a seguir as cinzas.

Frankl tinha nascido em Viena e era de origem judia, condição que o tinha conduzido até àqueles campos de concentração nazis da Segunda Guerra Mundial. Ali, foi testemunha e vítima de um gigantesco desprezo pelo homem, de um montão de vexames e factos repugnantes que, pela sua dimensão e crueldade, constituíram uma triste e assombrosa novidade na história. Frankl era um jovem psiquiatra, formado na tradição da escola freudiana e determinista por convicção. Pensava que aquilo que nos acontece em crianças marca o nosso carácter e a nossa personalidade, de tal maneira que o nosso modo de entender as coisas e de reagir perante elas, fica já essencialmente fixado para o futuro. Apesar disso, num determinado dia, permanecendo isolado no seu pequeno quarto, Frankl começou a tomar consciência do que denominou “liberdade última”, um reduto da sua liberdade que, jamais, lhe poderiam tirar. Os seus vigilantes podiam controlar tudo à sua volta. Podiam fazer o que quisessem com o seu corpo. Podiam inclusivamente, tirar-lhe a vida. Mas a sua identidade básica ficaria sempre a salvo, apenas à mercê dele próprio.

Compreendeu então, com uma nova luz que ele era um ser auto – consciente, capaz de observar a sua própria vida, capaz de decidir de que modo tudo aquilo poderia afectá-lo. Entre o que estava a acontecer e o que ele fizera, entre os estímulos e a sua resposta, estava pelo meio a sua liberdade, o seu poder para mudar essa resposta. Como fruto destes pensamentos, Frankl esforçou-se por exercitar essa parcela de liberdade interior. Os seus carcereiros tinham uma maior liberdade exterior, tinham mais opções para escolher. Mas ele podia ter mais liberdade interior, mais poder interno para decidir acertadamente entre as poucas opções que se lhe apresentavam. Graças a essa atitude mental, Frankl encontrou forças para permanecer fiel a si mesmo. E converteu-se assim num exemplo para os que o rodeavam, inclusivamente, para alguns dos guardas. Ajudou outros companheiros a encontrar sentido para o sofrimento. Alentou-os para que mantivessem a sua dignidade de homens dentro daquela vida terrível dos campos de extermínio. A sua vida, precisamente naquele momento de tanto desprezo pelo homem, em que uma vida humana não valia nada, tornou-se especialmente valiosa.

Frankl compreendeu com maior profundidade um princípio fundamental da natureza humana: entre o estímulo e a resposta, o ser humano tem a liberdade interior de escolher.

Uma liberdade que nos singulariza como seres humanos. Nem sequer os animais mais desenvolvidos têm esse recurso: estão programados pelo instinto ou pelo adestramento, mas não podem dirigir em nada esse programa, e nem sequer têm consciência de que exista.  

Ao contrário, como seres humanos podemos formular os nossos próprios programas e consegui-los. Podemos elevar-nos por cima de nós próprios, dos nossos instintos, dos nossos condicionamentos.

Não quer dizer que esses condicionamentos não influam, mas nunca poderão chegar a eliminar a nossa liberdade!

São esses dons, especificamente humanos, os que nos elevam muito acima do mundo animal! E na medida em que os exercitemos e desenvolvamos, estamos a exercitar e a desenvolver o nosso mais rico e precioso potencial humano...


Maria Helena H. Marques
Professora do Ensino Secundário

1 comentário:

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