quinta-feira, 6 de março de 2014

“Quaresma”! O que quer dizer?

Decorrido o período carnavalesco recheado de diversões por todo o lado, na acalmia que agora se faz sentir, perguntamo-nos: Afinal, o que vem a ser a Quaresma? A resposta é rápida e clara: A palavra vem do latim “quadragésima” e é utilizada para designar o período de 40 dias que antecedem a Páscoa, a festa ápice do cristianismo: a Ressurreição de Jesus Cristo, celebrada no Domingo de Páscoa.

Este tempo litúrgico, como tempo de preparação que é, é tempo de escuta da palavra de Deus, de conversão pessoal, de recordação do nosso Batismo, de reconciliação com Deus e com todos os nossos irmãos, recorrendo com mais frequência às “armas da penitência cristã”: a oração, o jejum e a esmola (cf. Mt 6,1-6. 16-18).

Embora seja um tempo penitencial, a Quaresma não é um tempo triste e depressivo. É ocasião de sermos mais dóceis à graça de Deus para derrotarmos `o homem velho` que atua em nós; ocasião de renunciarmos ao pecado que habita nos nossos corações e de nos afastarmos de tudo o que nos separa da vontade de Deus e, por conseguinte, da nossa verdadeira felicidade.

A sua duração inspira-se na simbologia do número quarenta na tradição da Sagrada Escritura: quarenta foram os dias que durou o dilúvio, quarenta foram os anos que o povo hebreu passou no deserto; quarenta dias que Moisés e Elias passaram nas montanhas. Há ainda muitas outras passagens da Bíblia em que aparece o número quarenta, e todas estão sempre associadas á ideia de tempo de penitência. Durante a Quaresma, a Igreja “quer convidar-nos, sobretudo, a reviver com Jesus os quarenta dias que passou no deserto, rezando e jejuando, antes de empreender a sua missão pública” (Papa Bento XVI).

    Como viver a Quaresma

    Durante este tempo especial de purificação, a Igreja propõe-nos uma série de meios concretos que nos ajudam a viver a dinâmica quaresmal e que já mencionámos atrás: a oração, o jejum e a esmola.

    Em primeiro lugar, a oração, é condição indispensável para o encontro com Deus. Mas na Quaresma, além do diálogo com o Senhor, devemos meditar a Sua palavra com mais profundidade, de modo especial temas relacionados com a Paixão de Cristo e os próprios relatos evangélicos. Se pudermos (e quase sempre podemos), façamos o esforço de frequentar mais vezes os Sacramentos, especialmente o da Confissão. E não nos esqueçamos de que a Igreja também nos pede neste tempo litúrgico que rezemos mais pela conversão de todas as pessoas (principalmente daquelas que nos são mais próximas).

    O jejum e as demais mortificações que podemos fazer nas circunstâncias ordinárias da nossa vida, também constituem um meio concreto de viver o espírito da Quaresma. Não devemos procurar fazer grandes penitências. O que, sim, podemos fazer é oferecer a Deus os incidentes diários que nos incomodam, aceitando com alegria os contratempos que podem apresentar-se: o trânsito lento, a chuva inoportuna, o frio ou o calor… Além disso, podemos renunciar às nossas pequenas comodidades – uma sobremesa de que gostamos mais, um programa de televisão, etc. Vale a pena lembrar que a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta – feira da Paixão são dias em que a Igreja pede que todos os fiéis jejuem e se abstenham de carne.

Por fim, de entre as práticas quaresmais que a Igreja nos propõe, o exercício da caridade ocupa um lugar primordial. É o que nos recorda S. Leão Magno: “Estes dias da Quaresma convidam-nos de maneira premente ao exercício da caridade; se devemos chegar à Páscoa santificados no nosso ser, devemos pôr um interesse especialíssimo em adquirir esta virtude, que contém em si todas as outras e cobre uma multidão de pecados”.

A caridade deve ser vivida de maneira especial com aqueles que estão mais perto de nós, no ambiente concreto em que nos movemos. Trata-se de sorrir àqueles com quem não nos damos tão bem (talvez por nossa culpa), de aumentar o espírito de serviço…. Principalmente, pode ser uma oportunidade para aproximarmos de Deus os nossos familiares e amigos: esse é o maior bem que lhes podemos fazer.

A Quaresma é também um tempo propício para lutarmos contra os nossos defeitos mais arraigados. Aproveitar esta época litúrgica para crescermos em humildade que pressupõe o conhecimento próprio, fazendo um exame mais aprofundado da nossa vida, descobrindo o que nos aproxima ou afasta de Deus. A seguir marcaremos metas concretas de melhoria e esforçar-nos-emos para atingi-las…Se alguma vez falharmos, recorreremos com humildade e contrição ao Sacramento da Penitência e recomeçaremos com alegria. Se fizermos da nossa parte o que podemos, Deus ajudar-nos-á dando-nos as graças necessárias para uma verdadeira conversão…

                                                                                                                                           Maria Helena H. Marques

                                                                                                                                           Prof.ª Ensino Secundário

A Consciência à luz da Verdade…


           Vivemos num mundo de contrastes em que se entrecruzam esperanças animadoras e obstáculos que, pela sua natureza e dimensões, nos podem parecer insuperáveis.

      Deparamos com múltiplos fatores que parecem favorecer em muitos homens uma consciência mais amadurecida da dignidade da pessoa, e uma nova abertura aos valores transcendentes, éticos e cristãos.

      No concernente à sociedade, apesar de tantas contradições, encontramos uma ânsia de justiça e de paz mais forte e generalizada; um sentido mais vivo do cuidado do homem pela criação e pelo respeito da natureza; uma procura mais aberta da verdade e dos fundamentos da dignidade humana; um empenho crescente, em muitos setores da população mundial, por uma mais concreta solidariedade internacional e por uma ordem global, na liberdade e na justiça.

      Ao mesmo tempo, vamos assistindo ao desenvolvimento de um maior potencial de energias oferecido pelas ciências e pelas técnicas, à difusão da informação e da cultura; verificamos também o crescimento da exigência ética e, consequentemente, de uma objetiva escala de valores que permita estabelecer as possibilidades e os limites do progresso.

      No que se refere ao campo religioso e cristão, abundam os preconceitos ideológicos e a violenta obstrução ao anúncio dos valores espirituais e religiosos conforme têm vindo a ser notícia em diversos pontos da Terra.

      Mas surgem, simultaneamente, novas e inesperadas possibilidades para a nova evangelização e o rejuvenescimento da vida da Igreja em muitas partes do mundo. É notória a vitalidade e força expansiva de muitos desses núcleos, concretamente no Continente Africano, Estados Unidos, países do Leste Europeu, etc., com um papel cada vez mais importante na defesa e promoção dos valores da pessoa e da vida humana.

      E nós, que fazemos? Procuramos, com frequência, consultar, examinar, ouvir e seguir os ditames da nossa consciência?!

      A consciência é a luz da alma! É o santuário mais íntimo da pessoa humana, expressão máxima da liberdade e da capacidade de dar sentido à própria existência, onde se afere o que é bem e o que é mal, onde se adota o sentido radical da vida, onde se tomam as opções que a guiam e comprometem.

       A consciência é o encontro das mais nobres faculdades humanas: a inteligência, a vontade, a liberdade. Por isso, ela tem de ser iluminada pela verdade, sustentada pela capacidade de decisão e exprimir-se livremente.

      O exercício da liberdade deveria ser sempre uma opção de consciência! Mas se esta se apaga, o homem fica às escuras e pode cometer todos os atropelos possíveis contra si mesmo e contra os demais.

       Não se pode violentar a consciência pressionando-a, iludindo-a com falsas verdades, desviando-a do essencial da sua responsabilidade. Violentar a consciência é o mais grave atropelo da dignidade humana. Porque a relação que existe entre a liberdade do homem e a lei de Deus tem a sua sede viva no coração da pessoa, ou seja, na sua consciência moral: no fundo da própria consciência, o homem descobre uma lei que não impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer; essa voz, que sempre o está a chamar ao amor do bem e à fuga do mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu coração: faz isto, evita aquilo…

     “ Cada um de nós tem no seu coração uma lei escrita pelo próprio Deus: a nossa dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que seremos julgados “ (cf. Rom 2, 14-16).

      Diante de tal dignidade e responsabilidade, reconhecemos a necessidade imperiosa de a consciência ser iluminada pela verdade. Pela Verdade objetiva revelada!

      Formar a própria consciência é sempre, mas sobretudo nas questões mais graves, procurar ajustá-la à luz dessa Verdade...

      Para o caminhante que verdadeiramente deseja chegar bem ao seu destino, o mais importante é ter claro o caminho. Agradece os sinais claros, ainda que alguma vez indiquem um percurso um pouco mais estreito e difícil e fugirá dos caminhos que embora amplos e cómodos, não conduzem a nenhuma parte, ou levam a um precipício…

      Devemos ter o máximo interesse em formar bem a nossa consciência, pois é a luz que nos faz distinguir o bem do mal e com a cooperação da inteligência e da vontade, optar pelo bem.

      Por outro lado a luz que há em nós deve, necessariamente, irradiar e projetar-se naqueles que estão ao nosso lado, particularmente, as crianças e os jovens. É grande a nossa responsabilidade! Os filhos, os alunos, os colegas fixam-se no nosso comportamento que lhes deve falar de doutrina e vida. Fazer e ensinar…Ir à frente!

      Mas ir à frente sem perder de vista que a consciência do cristão precisa de ser iluminada continuamente, não apenas pela luz natural, mas pela Palavra de Deus e ensinamentos da Igreja, coerente e unânime, com longa tradição…

      Só a luz da Verdade indica com clareza e segurança o caminho a seguir e a decisão a tomar, em liberdade e com humildade!

 

                                                                                                  Maria Helena Marques

                                                                                                                      Prof.ª do Ensino Secundário

"A miséria não coincide com a pobreza"

À imitação do nosso Mestre, nós, cristãos, somos chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a trabalhar concretamente para as aliviar. A miséria não coincide com a pobreza; a miséria é a pobreza sem confiança, sem solidariedade, sem esperança. Podemos distinguir três tipos de miséria: a miséria material, a miséria moral e a miséria espiritual. A miséria material é a que habitualmente designamos por pobreza e atinge todos aqueles que vivem numa condição indigna da pessoa humana: privados dos direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as condições higiénicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento cultural. Perante esta miséria, a Igreja oferece o seu serviço, a sua diakonia, para ir ao encontro das necessidades e curar estas chagas que deturpam o rosto da humanidade. Nos pobres e nos últimos, vemos o rosto de Cristo; amando e ajudando os pobres, amamos e servimos Cristo. O nosso compromisso orienta-se também para fazer com que cessem no mundo as violações da dignidade humana, as discriminações e os abusos, que, em muitos casos, estão na origem da miséria. Quando o poder, o luxo e o dinheiro se tornam ídolos, acabam por se antepor à exigência duma distribuição equitativa das riquezas. Portanto, é necessário que as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à sobriedade e à partilha.

Não menos preocupante é a miséria moral, que consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. Quantas famílias vivem na angústia, porque algum dos seus membros – frequentemente jovem – se deixou subjugar pelo álcool, pela droga, pelo jogo, pela pornografia! Quantas pessoas perderam o sentido da vida; sem perspectivas de futuro, perderam a esperança! E quantas pessoas se vêem constrangidas a tal miséria por condições sociais injustas, por falta de trabalho que as priva da dignidade de poderem trazer o pão para casa, por falta de igualdade nos direitos à educação e à saúde. Nestes casos, a miséria moral pode-se justamente chamar um suicídio incipiente. Esta forma de miséria, que é causa também de ruína económica, anda sempre associada com a miséria espiritual, que nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor. Se julgamos não ter necessidade de Deus, que em Cristo nos dá a mão, porque nos consideramos auto-suficientes, vamos a caminho da falência. O único que verdadeiramente salva e liberta é Deus.

O Evangelho é o verdadeiro antídoto contra a miséria espiritual: o cristão é chamado a levar a todo o ambiente o anúncio libertador de que existe o perdão do mal cometido, de que Deus é maior que o nosso pecado e nos ama gratuitamente e sempre, e de que estamos feitos para a comunhão e a vida eterna. O Senhor convida-nos a sermos jubilosos anunciadores desta mensagem de misericórdia e esperança. É bom experimentar a alegria de difundir esta boa nova, partilhar o tesouro que nos foi confiado para consolar os corações dilacerados e dar esperança a tantos irmãos e irmãs imersos na escuridão. Trata-se de seguir e imitar Jesus, que foi ao encontro dos pobres e dos pecadores como o pastor à procura da ovelha perdida, e fê-lo cheio de amor. Unidos a Ele, podemos corajosamente abrir novas vias de evangelização e promoção humana.

Queridos irmãos e irmãs, possa este tempo de Quaresma encontrar a Igreja inteira pronta e solícita para testemunhar, a quantos vivem na miséria material, moral e espiritual, a mensagem evangélica, que se resume no anúncio do amor do Pai misericordioso, pronto a abraçar em Cristo toda a pessoa. E poderemos fazê-lo na medida em que estivermos configurados com Cristo, que Se fez pobre e nos enriqueceu com a sua pobreza. A Quaresma é um tempo propício para o despojamento; e far-nos-á bem questionar-nos acerca do que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer a outros com a nossa pobreza. Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói: não seria válido um despojamento sem esta dimensão penitencial. Desconfio da esmola que não custa nem dói.


(Extracto da Mensagem do Santo Padre Francisco para a Quaresma)