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domingo, 15 de julho de 2012

As 5 fases do exercício da autoridade paterna/materna





No exercício correcto da autoridade dos pais podemos destacar cinco fases distintas:

Pensar

Informar-se

Decidir

Comunicar claramente
Fazer cumprir


Quando algumas destas etapas são omitidas, podem surgir dois desvios inaceitáveis:

1 - O autoritarismo - exercício arbitrário da autoridade
2 - A permissividade - não exercício da autoridade.

Estas fases exigem uma atenção particular por parte daqueles que desejam exercer a sua autoridade acertadamente, ao serviço do progresso pessoal daqueles que lhes obedecem, neste caso, os filhos. Em primeiro lugar, há que encontrar tempo para pensar em que coisas é necessário ser exigente e em que coisas tal é desnecessário; no que se deve agir com firmeza e em que aspectos se pode ser flexível, ou como se harmonizam a flexibilidade e a firmeza; quando convém actuara directamente ou quando é melhor que intervenham os filhos mais velhos ou qualquer outra pessoa. E até , em função de que objectivos educativos se exige ou se orienta cada um dos filhos.

Em segundo lugar, há que saber informar-se. Não apenas em relação à autoridade educativa, mas também acerca do que cada um dos filhos pensa do que o afecta na vida familiar. Os filhos precisam de informar e de ser informados: isto constitui uma modalidade na participação familiar dos filhos - participação consultiva.


O poder de decidir é igualmente o dever de tomar boas decisões antes de mandar.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

A urgência de um “Novo Feminismo”

Realizou-se em Roma, de 7 a 9 de Fevereiro, um Congresso Internacional sobre a mulher: “Mulher e Homem, a totalidade do humano”, para celebrar os vinte anos da carta apostólica do Papa João Paulo II, “Mulieris Dignitatem” (1988-2008).

Nesta exortação apostólica, João Paulo II defende um feminismo cristão que não é de ontem nem de hoje. Remonta ao tempo da Criação. “Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus: criou-os homem e mulher” (Gén. 1,27).


Possuem igual dignidade diante de Deus. Rege-os uma lei universal, gravada no coração- a lei natural- intrínseca, que é e será sempre, um desafio a toda a lei positiva. Lei positiva que, para ser humana, deve dinamizar a existência do homem em dignidade, não podendo desconhecer, nem contradizer, essa lei fundamental impressa no mais íntimo do ser humano: homem e mulher.

Foram criados em perfeita igualdade enquanto pessoas humanas, no seu respectivo ser de homem e de mulher (Cat. da Igr. Cat.). A mulher possui, com o mesmo título que o homem e no mesmo grau, a natureza de ser racional e livre. A um e a outro Deus atribuiu a missão de submeter a terra (Gén.1,28) e de trabalhar (Gén. 2,15). Deus quis a criatura humana, por si mesma, de onde deriva a dignidade da mulher e do homem, seres que têm relações pessoais com Deus (Gén. 3, 9-10).

Abstraindo-nos do relato da criação, vemo-nos na impossibilidade de penetrar o profundo sentido da personalidade da mulher, da sua feminilidade e do papel insubstituível que é chamada a desempenhar na vida da humanidade.


A vocação da mulher não é uma vocação para a dependência; é-o para a alteridade, a complementaridade, na igualdade da natureza. A pessoa-homem e a pessoa-mulher, não podem realizar-se senão por um dom desinteressado de si porque, ser pessoa, significa tender à própria realização, explica João Paulo II.

Tornar-se um dom, diz respeito a todo o ser humano, seja homem, seja mulher, que o realizam na peculiaridade própria de cada um (MD, 7), “não sendo certamente os recursos pessoais da feminilidade menores que os recursos da masculinidade, mas diversos” (MD, 10).

Um sã exaltação do papel da mulher leva a reconhecer que ela é chamada a levar à família, à sociedade civil, à Igreja, alguma coisa de característico, que lhe é próprio e que só ela pode dar: a sua delicada ternura, a sua generosidade incansável, o seu amor ao concreto, a sua agudeza de engenho, a sua capacidade de intuição, a sua piedade profunda e simples, a sua tenacidade...A feminilidade não é autêntica se não reconhece a formosura dessa contribuição insubstituível e não a incorpora na própria vida (Temas actuais do cristianismo).

O desafio que se espera do verdadeiro feminismo é tornar a mulher verdadeiramente feliz, colocando-a no lugar que por direito divino lhe pertence: Mulher, Esposa e Mãe!

Na audiência concedida aos congressistas, na sua maior parte mulheres, o Papa Bento XVI reconheceu “persistir ainda uma mentalidade machista, que ignora a novidade do cristianismo, novidade que reconhece e proclama a igual dignidade e responsabilidade da mulher em relação ao homem”.

O Papa continuou, referindo que há lugares e culturas nos quais a mulher é discriminada e menosprezada só pelo facto de ser mulher, fazendo dela objecto de maus-tratos ou de abusos na publicidade e na indústria do consumo e da diversão.

Mais adiante salientou que “perante correntes culturais e políticas que tentam eliminar, ou pelo menos ofuscar e confundir, as diferenças sexuais inscritas na natureza humana, considerando-as como uma construção cultural, é necessário recordar o desígnio de Deus que criou o ser humano homem e mulher, com uma unidade e ao mesmo tempo uma diferença originária e complementar”.

Neste contexto, o Papa reivindicou o direito dos filhos de “poderem contar com um pai e uma mãe para que cuidem deles e os acompanhem no seu crescimento. O Estado, pela sua parte, deve apoiar com políticas sociais adequadas tudo o que promove a estabilidade e a unidade do matrimónio, a dignidade e a responsabilidade dos cônjuges, no seu direito primordial insubstituível, como educadores dos filhos”. Por fim, exigir que se permita à mulher colaborar na construção da sociedade, valorizando o seu típico “génio feminino”.

O Cardeal Canizares, na sua intervenção, alertou os participantes do Congresso para o poder destruidor da ideologia do género, referindo tratar-se de uma “revolução cultural em todos os âmbitos”, mais insidiosa e destruidora do que se possa pensar... Continuou, salientando que “Mulieris dignitatem” é mais actual do que nunca porque, nesta carta, João Paulo II expressa “a verdade do homem, que é homem e mulher, e indica os seus princípios antropológicos”.

Recordou que na ideologia do género, a sexualidade não se aceita “propriamente como constitutiva do homem” – mas “o ser humano seria o resultado do desejo de escolha”, de maneira que, “seja qual for o seu sexo físico” a pessoa – seja mulher ou homem –“poderia escolher o seu género” e modificar a sua opção, (antinatural! ) quando quiser: homossexualidade, heterossexualidade, e outras coisas igualmente aberrantes... Adverte que a mudança cultural e social que o fenómeno origina, é de grande alcance, uma vez que para esta ideologia não existe natureza, não existe a verdade do homem...

Nesta pseudo revolução cultural, “o nexo indivíduo-família – sociedade perde-se e a pessoa reduz-se a indivíduo”, ao mesmo tempo que se questiona a família e a sua verdade – o matrimónio entre um homem e uma mulher aberto à vida- e toda a sociedade.

Afirma que “Mulieris dignitatem” sublinha com veemência que homem e mulher “são criados como pessoas à imagem de “Deus – Amor”, para viverem em comunhão”; daí a sua reciprocidade e que a pessoa esteja chamada também a existir para os demais, convertendo-se em um dom.

A consequência é de extrema importância, porque assim, na família, “os filhos encontram-se no solo de uma realidade sólida e percebem que viver é uma possibilidade gozosa e uma graça – aponta; não uma desgraça ou um azarado destino”.

De acordo com a agência de notícias católica Ecclésia, o Cardeal Stanislau Rylko pediu que os leigos católicos empenhados na política promovam leis justas, que respeitem a dignidade e a vocação da mulher, em plena coerência com o magistério eclesial. Alertou para a urgência em denunciar qualquer abuso, injustiça e marginalização das mulheres, em diversos contextos sociais e culturais, assim como os riscos dos novos paradigmas culturais, como o do “género”.

Considerou ser urgente a promoção de um “Novo Feminismo” que reconheça o “génio feminino” e trabalhe pela superação da discriminação, já que todos os dias se assiste a um rápida e profunda transformação dos modelos da identidade feminina e masculina, e da relação entre sexos.

O Cardeal polaco apontou também o dedo a duas tendências dominantes: o “feminismo radical”, que pretende defender a identidade feminina fazendo da mulher a antagonista do homem, e a “ideologia de género” que pretende suprimir a diversidade sexual.

Sublinhou ainda o ensinamento de João Paulo II: “feminilidade e masculinidade complementares entre si, não apenas desde o ponto de vista físico e psíquico, mas ontológico”; graças à dualidade do masculino e do feminino o ser humano realiza-se plenamente.

Recordou também que foi o próprio João Paulo II que convidou os leigos “a tornar -se promotores de um novo feminismo”, que supõe reconhecer e expressar o verdadeiro “génio feminino” em todas as manifestações da convivência civil, trabalhando pela superação de toda a forma de exploração, reconhecendo que ser mulher é uma autêntica, sublime e insubstituível missão.



Maria Helena Henriques Marques
Professora do Ensino Secundário

Ser e Parecer



Começo por contar uma pequena história.
Um dia, um jovem professor contratado, de brinco na orelha e “piercing” no sobrolho, foi substituir uma colega do 1º ciclo numa aldeia. Os pais das crianças, quando o viram, tiveram uma imediata reacção de desconfiança, aliás apercebida pelo professor que se apressou a falar com eles para lhes transmitir serenidade e confiança.

Os psicólogos sociais demonstraram, por exemplo, que a imagem do conferencista é o factor mais importante para o êxito de uma conferência, estando acima do próprio conteúdo e do tom de voz.

É que a aparência, sem ser o mais importante, conta.

Inconscientemente, quando não conhecemos alguém, fazemos um juízo dessa pessoa, rapidamente, em poucos segundos – como um flash fotográfico – baseando-nos nessa aparência.

Os fins do vestuário podem-se resumir a três: o 1º é o de servir de protecção ao frio, ao calor, etc. O 2º é o de resguardar a intimidade. O 3º pode referir-se como sendo de adorno, já que pode, de algum modo, contribuir para elevar a dignidade humana.

Uma boa peça de vestuário consegue os três fins ao mesmo tempo. Um bom estilista não precisa de se servir do sexo para chamar a atenção. Se numa moda o que se observa primeiro é o sexo, estamos perante um modelo escasso de ideias e originalidade.

A moda hoje é suficientemente versátil para que cada qual – sobretudo a mulher, eternamente atraída pela beleza – saiba encontrar, na panóplia de cortes, padrões, materiais, cores, acessórios, o seu estilo próprio.

Ser elegante mais do que usar o que está “in fashion” é saber tirar o melhor partido do que a natureza nos concedeu.

“Diz-me como te vestes, dir-te-ei quem és”. O modo como cada qual se apresenta, tem muito a ver com a interioridade da pessoa, embora haja excepções à regra.

Uma “Maria mal pronta” demonstra pouca cortesia, provavelmente, falta de diligência ou reflexão. Noutro extremo, as “fashion victims” demonstram falta de espírito crítico, por vezes futilidade e escassa intimidade.

Actualmente a mulher e sobretudo, na estação quente que se aproxima, necessita de ideias muito claras e uma forte personalidade para não se deixar arrastar pelo ambiente.

Uma mulher, esclarecida, sabe ser e parecer aquilo que é.


Rosa Lopes

As Mães - II


Mãos de fada, essas da nossa Mãe!

Vejo-a na cozinha a preparar coisas boas, também aí aproveitando frequentemente outras tantas coisas boas restantes de outras refeições. Ai aqueles croquetes de puré de batata com picado de carne! Ai os "ninhos de andorinha", para dar saída ao pão duro! Ai os sonhos de bacalhau, espremidos pelo bico, em forma de estrela, de um saco de pano! Ai os pastelinhos folhados, com a massa tendida pela Mãe sobre a mesa da cozinha, com dobras e voltas certas, segundo um rigorosíssimo critério!

Certo dia, frequentava eu o 5.° e último ano da Faculdade, o saudoso Professor de Ontologia Doutor Júlio Fragata, após um exame oral de cerca de três horas e já em tempo de conversa informal, pediu-me que lhe falasse dos meus Pais. Creio ter sido sua intenção observar traços de hereditariedade porventura visíveis na minha maneira de ser, que ele foi conhecendo ao longo do curso.

Lembro-me de lhe ter apresentado um Pai, há muito falecido (eu só tinha então quinze anos), como uma das mais talentosas pessoas que eu já conhecera, de um brilho polifacetado, a estender-se desde o dom de bem escrever ao de cantar e tocar guitarra com uma alma e uma sensibilidade únicas. Depois de mostrado ao Professor tal retrato do Pai, assim destacado e enaltecido, ele atalhou com este luminoso comentário: "Se um homem sensível, inteligente e brilhante, como diz que era o seu Pai, escolheu para partilhar a vida a mulher que é sua Mãe, não precisa de me falar dela. Deve ser uma pessoa de muito valor".

Disse tão pouco, nestas linhas, sobre a minha Mãe, que está quase a partir! Apenas aqueles flashes instantâneos que, como uma fixação, se instalaram na minha mente esta noite, na hora em que lhe peguei nas mãos enrugadinhas, com alguns dedos muito tortos das artroses, e as recordei, habilidosas e desembaraçadas, sempre, sempre trabalhando para nós. Umas mãos que sabiam fazer tantas coisas! Até pintar, em tempos mais recuados.

Meu Deus, que falta me vai fazer a minha Mãe!

Eu, que tenho a ventura de também ser mãe, sinto com uma força tremenda a intensidade desta relação visceral, que me une à minha Mãe e me une aos meus filhos! Nenhuma outra relação é assim. Aos que trouxemos dentro de nós e à que nos trouxe dentro de si sentimo-nos ligados para sempre por um elo indestrutível e único.

Eu não sei se o meu leitor é dos que têm uma Mãe velhinha; mas, se tiver, aproveite bem o tempo de a ter, o tempo de a sentir, o tempo de a ajudar nas coisas mais elementares e simples, o tempo de a ouvir com paciência contar mil vezes a mesma história, o tempo de ter de lhe repetir as coisas, porque não as ouve, o tempo de se encantar com ela! Aproveite mesmo, porque, quando a perder, vai sentir-se tão sozinho, tão vazio e tão desprotegido que só terá lugar, no seu coração, para uma imensa saudade.


Maria Luísa Lamela

As Mães - I



Ter uma Mãe muito velhinha, na casa dos 90 anos, uma Mãe que não é rabugenta nem exigente, uma Mãe linda que acha sempre que tudo está bem, uma Mãe que passa longas horas com um trozinho de lã, fazendo pequenos presentes para nos dar, ter uma Mãe assim é uma bênção!

No momento em que escrevo estas linhas, eu tenho uma Mãe assim, quase a fazer 93 anos! Mas no momento em que estas linhas forem lidas, provavelmente, já não terei essa felicidade.

A minha Mãe velhinha está a chegar ao fim, e só um suplemento permanente de oxigénio a mantém ainda na caminhada da vida.
E porque em situações emocionais de grande densidade me assalta um incontido desejo de escrever, debruço-me hoje sobre essa experiência íntima, comum a todos os filhos contemplados com a ventura de terem Mãe até tarde, da dolorosa espera pelo seu momento final.

Como é possível que uma pessoa tão velhinha, tão incapaz de fazer o que quer que seja, até de comer sozinha ou de caminhar, tão dependente e tão frágil, nos faça tanta falta?! Como se explica este vazio desolador que se nos instala na alma depois da sua ausência?! Porque ficamos nós, do lado de cá, cheios de saudades de tudo - das inquietações que ela nos deu, de todo o tempo que com ela gastámos, dos esforços para a segurar e a ajudar a andar, da canseira com as sopas e as comidas passadas para não se engasgar, da paciência a ouvi-la contar e recontar as mesmas coisas?!

Sinto neste momento uma tristeza infinita e uma saudade prematura que me não deixa sossegar. Ter Mãe é uma felicidade, e muito em breve eu vou deixar de ter Mãe.
Dou comigo a recordar-me de como ela foi ao longo de tão longa vida.
Uma Senhora linda, lindíssima e donairosa – "uma estampa!", dizia-se na terra - de rosto simpático e sorridente, uma Senhora que o meu Pai amou imensamente e que, com alegria repetida em cada nascimento, trouxe à luz do dia seis rijos bebés (cinco raparigas e, sete anos depois, um único rapaz).

Lembro-me, com absoluta nitidez, de anos muito recuados da minha infância (3, 4, 5 anos), e de como era a minha Mãe nesse tempo, numa casa com tanta gente!
Usava eu então, para não me sujar enquanto brincava, babeirinhos ou bibes, feitos por vezes com encaixes e aplicações de tecidos diferentes, retirados de roupas desfeitas das irmãs mais velhas.
Que lindos eram esses babeirinhos, feitos de aproveitamentos, que patenteavam o bom senso, o bom gosto e o esmero da Mãe!

Lembro-me de ir para a escola muito aprumada e arranjadinha - um primor de asseio - com um laçarote no cabelo, que a Mãe me fazia antes de sair. Lembro-me das ocasiões especiais em que era de regra estrear roupa nova: o Domingo de Páscoa e o dia da Senhora da Saúde, dia de festa em Esposende, onde morávamos. Ah, também havia luxos na memorável data do exame da 4ª classe, farpelinha toda "nova em folha", dos pés à cabeça, incluindo sapatos a apertar com presilha e soquetes com dobrinha, tudo adequado à solenidade do momento. A Mãe punha-nos num "brinquinho" para irmos fazer exame!

Lembro-me de a ver tricotar para nós camisolas lindas, algumas também com recurso a lãs desfeitas de outras peças, e com combinações de cores de vistosos efeitos. Era ainda o tempo das meias de quatro agulhas, que a Mãe manobrava com grande agilidade, sendo que algumas destas obras, confeccionadas às escondidas das mais pequeninas (eu era a mais nova de todas), vinham depois parar aos sapatinhos, na noite de Natal, como sendo prenda do Menino Jesus.
Seguia-se então, muito arregalados os olhos inocentes, a surpresa geral: "Como é que o Menino Jesus adivinha os tamanhos, para trazer tudo a servir às pessoas?"

Maria Luísa Lamela

terça-feira, 1 de abril de 2008

Inmaculada Echevarria: Trata-se de eutanásia ou não?




A retirada do respirador de Inmaculada Echevarria e a sedação terminal para aliviar as dores da sua agonia, com o resultado final da sua morte, provocou diversas reacções e interpretações.




Há quem fale...



de eutanásia,
de eutanásia passiva,
de suicídio assistido ou até
de limitação do esforço terapêutico.

O “ABC” foi a imprensa que recolheu o maior número de opiniões sobre este caso.

César Nombela, Catedrático de Microbiologia, considera que “é impossível subtrair-se à ideia de que o respirador supõe a aplicação de um tratamento tão comum como é a alimentação mediante a sonda gástrica ou por via parentérica ao enfermo incapaz de se alimentar de forma normal. É muito difícil, portanto, evitar a conclusão de que o que se praticou é uma eutanásia, mesmo voltando a insistir naquilo que defendem os que pensam que simplesmente se omitiu uma terapia desproporcionada”.
Alfonso López de la Osa, professor de Direito Administrativo, também é da mesma opinião ao dizer que “é uma constatação que a execução do acto, a desconexão do respirador, é um acto directo que tem como fim imediato acabar com a vida de uma pessoa consciente”.

Direito à retirada de um tratamento

Também no mesmo jornal, José Miguel Serrano, professor de Filosofia do Direito, declarou que depois do consentimento para receber tratamento através do respirador, Inmaculada “mantinha o direito de se opor a tal tratamento em qualquer momento”, a decisão do Conselho Consultivo de Andaluzia seria “correcta”, embora reconhecendo que “estamos nos limites”.

Xavier Gómez-Batiste, presidente da Sociedade Espanhola de Cuidados Paliativos, por seu lado, garantiu que “não é eutanásia” porque “se trata de uma decisão individual legítima de limitação do esforço terapêutico”, embora reconhecesse que “este caso tem características que o tornam mais chocante, pelo facto da relação entre o abandono de tratamento e a morte ser imediata (e mediática), quando comparada com um doente que decide abandonar a hemodiálise ou não se tratar de uma obstrução intestinal”.
Miguel Bajo, catedrático de Direito Penal, por outro lado, salienta que esta morte “não é punível porque existe um direito a recusar o tratamento conforme estipula o artigo 2.4 da nova Lei de Autonomia do Paciente”. De modo que “tal como um paciente hospitalizado pode recusar, em qualquer momento, a ingestão do medicamento mediante uma decisão racional, quem só mantém os sinais vitais mediante meios técnicos pode igualmente opor-se à conexão”.

Enrique Molina, professor de Teologia Moral da Universidade de Navarra, defende que “retirar a um paciente em estado terminal os meios terapêuticos que o mantêm com vida, não pode ser considerado eutanásia: não se causa nem induz directa ou indirectamente a sua morte. A dificuldade está em avaliar se os meios que permitem a conservação da sua vida são proporcionados ou não ao fim que se pretende. A respiração assistida é um meio que pode ter mais de desproporcionado que de proporcionado”, ainda que “à hora da verdade, somente quem conhece muito bem a situação médica do enfermo e a sua evolução passada e previsível, esteja em condições de valorizar o meio terapêutico, e, portanto, determinar se a actuação médica ao retirá-lo, contando sempre com o paciente, é ou não eutanásia”.

Manuel Gómez Sancho, director da Unidade de Cuidados Paliativos do Hospital Doctor Negrín, nega categoricamente a possibilidade de considerar este acto como eutanásia, porque “era uma doente e como tal tinha direito a recusar um tratamento com o que não estava de acordo. Noutro momento quando o poderia ter feito não o fez, talvez tenha achado ser este o momento adequado para o fazer. Ninguém pode ser obrigado a submeter-se a receber um tratamento, salvo algumas excepções, e nenhuma dessas é o caso actual”.

El País recolhe outras opiniões: Dolores Espejo, presidente da Fundação Bioética, referiu que “neste caso não se trata de um tratamento médico mas sim de uma medida de suporte vital. É evidente que a eliminação de uma vida é um modo desproporcionado para tratar a dor, qualquer outra doença, ou uma deficiência, tal como o sofrimento de uma pessoa não justifica a sua eliminação”.
Maria Dolores Vila-Coro, titular da cátedra de bioética da Unesco, discorda, por seu turno, dizendo: “Não é eutanásia libertar a pessoa do aparelho que a mantém artificialmente, se o deseja, para que a natureza siga o seu curso normal e actue por si mesma, quando o processo de morte já é irreversível. Ao desconectar a Inmaculada não se abre nenhuma porta à eutanásia pois tudo depende do uso que se faça e do alcance que se lhe outorgue”.

Outras opiniões

Numa nota de imprensa, a “Federação de Associações Pró-vida” manifestou “o seu profundo desgosto e preocupação pela morte de Inmaculada Echevarria pois reconhece tratar-se de um claro caso de eutanásia passiva, por omissão de um meio proporcionado e necessário”.

Enquanto, por outro lado, a plataforma “Hay Alternativas”, através do seu porta-voz, a Dra. Gádor Joya, afirma que “temos de evitar cair na armadilha que nos querem preparar os partidários da morte, tentando aproveitar este caso para trazer a debate o tema da eutanásia, uma vez que o caso de Inmaculada poderia situar-se dentro de um quadro de limitação do esforço terapêutico”.

Aceprensa, 16-03-2007


Tradução de Maria Helena H. Marques
Professora do Ensino Secundária

terça-feira, 18 de março de 2008

Famílias rebeldes e numerosas III


Aliados secretos


Na guerra cultural, as famílias têm também os seus aliados secretos.


Quando, de repente, aparecem uns desconhecidos que dizem ”tem uns meninos preciosos!” ou “é um valente!” ou “que sorte tem!”, ao pai abatido se lhe eleva a moral, como a um soldado nas trincheiras depois de saber que os reforços vêm a caminho.


Sabendo isto, faço, agora, um esforço consciente para felicitar os pais e mães com filhos pequenos, para os ajudar a abrir uma porta ou para os ajudar com o carrito. Um sorriso cúmplice que diga “a paternidade não é para pusilânimes” é, por vezes, o elixir que um pai necessita de ouvir para superar um ou outro “desastre infantil”.


Conto um episódio que aconteceu comigo:

Por causa de uma série de circunstâncias complicadas, há pouco tempo a minha mulher teve de ir sozinha à igreja com a nossa filha pequena. No final da Missa, a pequena Catarina chorava tão alto que muitos voltaram a cabeça. Minha mulher corou e pareceu-lhe eterno o caminho até à porta. Mas o que de mais importante sucedeu neste episódio foi que um desconhecido se aproximou dela, felicitou-a por ter solucionado o problema dizendo-lhe que sabia quão difícil era a sua tarefa.


Apesar de se ter sentido tão mal, quando mais tarde me contou, estava radiante. Nunca é demais que se dê ânimo!


No mundo actual, os pais e as mães necessitam disso mais do que nunca.

Aceprensa, 20-06-2007


Tradução e adaptação: Maria Helena Henriques Marques

Professora do Ensino Secundário

Famílias rebeldes e numerosas II



O recurso mais valioso: a geração futura



Se dissipamos a cortina de fumo, veremos o que os índices de natalidade mostram: uma sociedade contrária às crianças.




Qualquer país necessita de um mínimo de 2,1 filhos por mulher (Estados Unidos, por exemplo) só para sobreviver. Uma sociedade que ama as crianças não pode ter uma taxa de fecundidade de apenas 1,5 filhos por mulher, como no Canadá, ou de 1,3, como em Espanha, Itália e Grécia. De facto, toda a Europa tem populações implosivas, a julgar pelas suas taxas de fecundidade.



Até há pouco tempo, quando numerosos países ocidentais se depararam com a crise de natalidade, não se oferecia qualquer tipo de benefício fiscal às famílias que geravam o recurso mais valioso: a geração seguinte.



O que acontece, hoje em dia, em quase todos os países ocidentais, momentos após uma mulher ter dado à luz uma criança, é uma enfermeira dar-lhe uma palestra sobre os métodos anticonceptivos. As Nações Unidas disponibilizam fundos, colocando-os à disposição da organização de planeamento familiar Planned Parenthood que gasta mais dinheiro em pôr fim às gravidezes que em qualquer outra coisa, mas quando os casais têm filhos, escondem esses recursos.




Enviam-se crianças para os infantários, mas não há nenhum adulto que levante a mão quando se pergunta: Quem teria preferido o infantário a estar com a sua mãe quando era menino?



O mundo ocidental padece de algo pior que um desdobramento da personalidade: o que é uma bênção para uns, é uma carga para outros.



Quando as duas partes se encontram, os acontecimentos podem dar uma volta curiosa.




Certa pessoa bem conhecida levou todos os seus cinco filhos às compras. Quando o funcionário da caixa se inteirou de que todos os meninos eram dela, comentou: “há grandes avarentos”.




Que estranho!...Não?



Porém, os comentários depreciativos de que são alvo as mães, em muitos casos, não são dirigidos a elas, mas sim à pessoa que os pronuncia. São, muitas vezes, justificações para a mulher que decidiu não ter filhos e agora se arrepende porque esperou demasiado.



Geralmente, a hostilidade dos homens não é mais que o mesmo egocentrismo de sempre.




Deparei-me com esta situação, pela primeira vez, quando o meu primeiro filho tinha seis meses e o levei a um restaurante onde me encontrei com pessoas conhecidas. Para o jovem casal que tinha ao lado, ter família não entrava nos seus planos devido às consequências para a figura dela, à vida sexual de ambos, às noites de hóquei dele e aos seus planos de viagem de ambos. O marido, inclinando-se para nós para expressar a sua opinião, cruzou os indicadores das mãos, colocou-os à frente da cara do meu filho e como se se protegesse de algum mal, disse desafiante que, para eles, ter filhos estava, absolutamente, fora de toda e qualquer discussão. Ela nada disse.



Vendo agora este episódio à distância, creio que esta cena foi uma mensagem para ela, não para mim.

Aceprensa, 20-06-2007



Tradução e adaptação: Maria Helena Henriques Marques
Professora do Ensino Secundário

Famílias rebeldes e numerosas I


As mães e os pais de famílias numerosas necessitam de um arsenal de ideias e frases para responder à mentalidade anti-natalista. Quem tem filhos encontra-se na primeira linha de fogo da guerra cultural. Contrastando com o ditado “um filho é uma bênção”, há casos de uma patente hostilidade.

Contemos um caso:

Maria López e seu marido, Alex vivem na capital do Canadá, Otava, e quando vão ao restaurante com os seus 4 filhos recebem mais sorrisos do que más caras, mais elogios que menosprezo. Porém, assombra-os que tenham também de ouvir críticas.


Num mundo em que a maioria nos tem ensinado que, quando não temos nada de agradável para dizer, é melhor não nos pronunciarmos, não deixa de ser revelador que as pessoas condenem abertamente as famílias que tomaram a decisão de ter mais filhos quando, segundo parece, não se deve ter mais do que dois.


Em certa ocasião, uma mulher, referindo-se a um homem com cinco filhos, disse a López: “Será que este não ouviu falar de controlo de natalidade?” López restorquiu-lhe do modo mais suave que pôde: “Afinal, não é a favor da liberdade de escolha? Pois isto foi o que ele escolheu”.

Frases com gancho - é a resposta!


Na era das frases curtas com gancho, as mães e os pais encontram-se na primeira linha de fogo na batalha das ideias tentando defender a família.


Como pai que sou de quatro filhos, estava eu com um pequeno grupo de famílias canadianas, quando a conversa girou para o tema da hostilidade que existe contra os que têm mais de dois filhos. A nossa conversa converteu-se, então, numa sessão estratégica improvisada acerca do modo como responder, de maneira coerente, a esses ataques. Todos estávamos de acordo em que, depois do insulto, o melhor é actuar com rapidez.


Os que atacam, apresentam-se com um sorriso complacente mas, na realidade, não querem discutir a filosofia da norma (regra) não escrita dos dois filhos. Ao contrário, os pais atacados gostariam de poder responder, prontamente, com uma máxima que conduzisse, posteriormente, a uma reflexão. “Creio que o melhor presente que podes oferecer a um menino é dar-lhe irmãos” foi a resposta ganhadora.

Agora, imagine que tem, por exemplo, dez filhos. Ora, um casal do Texas com dez filhos conta que a maior parte das pessoas fica maravilhada ao vê-los. É frequente nos restaurantes, perguntar-se-lhes a que acampamento pertence o grupo.


Contudo, uma vez, disseram-lhes: “Acham que são pessoas responsáveis tendo dez filhos?”
A esta inusitada pergunta a mãe, Catherine Musco Garcia-Prats, respondeu: “Nós não medimos o nosso sentido de responsabilidade pelo número de filhos que temos, mas sim pelo que fazemos com eles”. (Por esta resposta, nota-se que tem prática em responder às críticas).


Quando, noutra ocasião, lhe perguntaram se tem tempo para amar a tantos, Garcia-Prats responde: “O amor multiplica-se. Cada um deles conta com nove irmãos que o adoram. Eu não digo que ter filhos significa contar com alguém que venha ver-me quando for velho. Esta é que é uma resposta egoísta! Prefiro dizer que as crianças convidam ao sacrifício e estimulam a bondade das pessoas. Os meninos fazem do mundo um lugar melhor na medida em que obrigam os pais a amadurecer ao fazer-lhes pensar nas necessidades dos outros.

Aceprensa, 20-06-2007



Tradução e adaptação: Maria Helena Henriques Marques
Professora do Ensino Secundário

“Diz-me como te vestes, dir-te-ei quem és”

Começo por contar uma pequena história.

Um dia, um jovem professor contratado, de brinco na orelha e piercing no sobrolho, foi substituir uma colega do 1º ciclo numa aldeia. Os pais das crianças, quando o viram, tiveram uma imediata reacção de desconfiança, aliás apercebida pelo professor que se apressou a falar com eles para lhes transmitir serenidade e confiança. É que a aparência, sem ser o mais importante, conta.

Os psicólogos sociais demonstraram, por exemplo, que a imagem do conferencista é o factor mais importante para o êxito de uma conferência, estando acima do próprio conteúdo e do tom de voz.

Inconscientemente, quando não conhecemos alguém, fazemos um juízo dessa pessoa, rapidamente, em poucos segundos – como um flash fotográfico – baseando-nos nessa aparência.

Os fins do vestuário podem-se resumir a três: o principal é o de servir de protecção ao frio, ao calor, etc. Outro é o de resguardar a intimidade. O terceiro pode referir-se como o de adorno, já que pode de algum modo contribuir para elevar a dignidade humana.

Uma boa peça de vestuário consegue os três fins ao mesmo tempo. Um bom estilista não precisa servir-se do sexo para chamar a atenção. Se numa moda o que se observa primeiro é o sexo, estamos perante um modelo escasso de ideias e originalidade.

A moda hoje é suficientemente versátil para que cada qual – sobretudo a mulher, eternamente atraída pela beleza – saiba encontrar na panóplia de cortes, padrões, materiais, cores, acessórios o seu estilo próprio.

Ser elegante mais do que usar o que está “in fashion” é saber tirar o melhor partido do que a natureza nos concedeu. “Diz-me como te vestes, dir-te-ei quem és”. O modo como cada qual se apresenta, tem muito a ver com a interioridade da pessoa, embora haja excepções à regra.
Uma “Maria mal pronta” demonstra pouca cortesia, provavelmente falta de diligência ou reflexão.
Noutro extremo, as “fashion victims” demonstram falta de espírito crítico, por vezes futilidade e escassa intimidade.

Actualmente a mulher e sobretudo na estação quente que se aproxima, necessita de ideias muito claras e uma forte personalidade para não se deixar arrastar pelo ambiente.
Uma mulher, esclarecida, sabe ser e parecer aquilo que é.

Rosa Lopes

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

“Cérebro e Educação - Diferenças sexuais e aprendizagem”



  • Educação diferenciada


Estudos neurológicos lançam nova luz sobre as diferenças sexuais na aprendizagem.



O reconhecimento das diferenças dos cérebros masculino e feminino, e a sua consideração no processo educativo poderiam supor uma revolução no rendimento académico e facilitar uma redução notável dos actuais níveis de insucesso escolar, tendo em conta as conclusões de uma jornada convocada pela Associação Europeia de Educação Diferenciada (EASSE). Uma das estratégias que esta entidade propõe – apoiando-se na liberdade de ensino – é a possibilidade de separar as aulas de rapazes e raparigas por níveis etários, coincidindo com os diferentes períodos cognitivos, já reconhecidos pela ciência.


Conforme explicou Maria Calvo, presidente da EASSE, “o que se pretende é combinar as aportações de cientistas de áreas diversas, com diferentes orientações e que chegaram a algumas conclusões parecidas: há diferenças cognitivas a que se deveria prestar atenção; deste modo, a defesa de uma educação diferenciada não é uma questão política, cultural ou religiosa como por vezes se pretende admitir”.


Ainda que neurologistas e psicólogos sejam cautelosos no momento de fazer generalizações com as conclusões dos seus estudos, coincidem em afirmar que “as capacidades cognitivas são, em linhas gerais, diferentes entre o cérebro masculino e feminino. O primeiro está melhor dotado para o manejo espacial e o raciocínio matemático. O segundo para a fluidez verbal e a interpretação dos dados emocionais”, conforme declarou Hugo Liaño, professor da Universidade Autónoma de Madrid e chefe do serviço de Neurologia do Hospital Puerta de Hierro de Madrid. Estas afirmações que se apoiam em investigações neuropsicológicas recentes, têm origem no dimorfismo cerebral – diferenças de forma segundo o sexo, distinção que começa no período embrionário e que se mantém ao longo da vida, devido à influência hormonal.



Por exemplo, a acção das hormonas dá lugar a “um maior tamanho de certos núcleos cerebrais no homem comparativamente à mulher, e a uma maior lateralização das funções cerebrais na mulher relativamente ao homem", afirma Maria Gudin, neuróloga e autora do livro "Cérebro e afectividade". Apesar de reconhecer que muitas das diferenças entre os géneros não estarão totalmente estabelecidas, Gudin considera que “devem ser tidas em conta à hora de definir estratégias psicopedagógicas na educação”.


  • Ensinamentos da psicologia

Na opinião de Francisco José Rubia, catedrático de Fisiologia e autor do livro "O sexo do cérebro", uma das conclusões aplicáveis à área educativa provém, precisamente, da maturação posterior do hemisfério esquerdo nos rapazes, que faz com que transtornos de desenvolvimento, como a dislexia, a hiperactividade ou a tartamudez os afectem mais.


A partir do âmbito da psicologia acrescentam-se novos pontos dissemelhantes com implicações educativas, como “o rendimento académico, a aparição e o desenvolvimento da linguagem, as habilidades numéricas, espaciais, mecânicas, etc. que demonstram uma clara diferença entre homem e mulher”, afirma Serafim Lemos, catedrático de Psicologia da Universidade de Oviedo.


Assim, “com umas medidas de desenvolvimento linguístico prematuro, incide-se no desenvolvimento intelectual posterior das mulheres, mas não tanto nos homens; e uma carência de educação no período pré-escolar; ao contrário, tem efeitos mais negativos nas meninas do que nos meninos”, declara Lemos, sem perder de vista que não devem ter lugar generalizações do tipo “qualquer mulher é superior a qualquer homem nas capacidades ou agilidades verbais ou que qualquer homem supera a mulher nas habilidades viso-espaciais”.


O mesmo autor aponta ainda algumas tendências diferentes na personalidade de homens e mulheres: “os varões caracterizam-se por um maior nível de agressividade, dominância e motivação do lucro; as mulheres, pelo motivo de uma maior dependência, uma mais intensa orientação social, daí serem mais afectadas pelos fracassos”. Embora a aparição desses rasgos de personalidade se encontre motivada por factores biológicos como a herança e as funções neuropsicológicas, na sua configuração também actuam elementos de tipo psicossocial, como estilos de vida, entre os quais se incluem os tipos de educação e de protecção, e sobre os quais se poderia actuar.

  • Consequências no ensino

Para Maria Calvo, “impõe-se aproveitar todas as diferenças inatas, para tirar o máximo partido da educação”. E no marco da liberdade de ensino, “permitir uma educação diferenciada flexível, nas escolas públicas, para alguns grupos etários, com a finalidade de tentar diminuir o insucesso escolar masculino ou fomentar as destrezas matemáticas nas raparigas, como já se tem vindo a verificar com êxito na Alemanha” é fundamental.


Considera ainda que muitos professores não estão conscientes das diferenças e “exigem o mesmo, de idêntica forma, tanto a meninos como meninas, no mesmo espaço de tempo e com o objectivo de obter uma mesma resposta por parte de ambos os sexos".


Um claro exponente é o modo de abordar o fracasso escolar – o nível de abandonos em Espanha atinge os 33% aos 16 anos-, pois “ignora-se a existência de uma forte componente sexual no insucesso escolar e, apesar de a variável sexo ser relevante no âmbito educativo, não há nenhuma actuação para encontrar uma solução, quer experimental queradministrativa”.


Os resultados das investigações sobre o cérebro também permitem outras leituras, com consequências educativas a diferentes níveis. Para Natália López Moratalla, catedrática de Bioquímica e autora do livro "Cérebro de mulher e cérebro de varão" (Rialp), assegura, precisamente, que o facto de, no cérebro humano, haver dois hemisférios abre a possibilidade de dois estilos de pensar que a unidade vital deverá equilibrar: “Um cérebro humanizado pode passar para primeiro plano o olhar analítico ou o olhar contemplativo, de acordo com a actividade que estiver a realizar, apesar da assimetria funcional dos hemisférios direito e esquerdo estar determinada, geneticamente, por processos precoces da vida fetal, e pelos níveis de hormonas(...); também a educação, a cultura e as resoluções pessoais amadurecem ou humanizam um cérebro que,consegue permanecer plástico por toda a vida”.


M. Ângeles Burguera. Aceprensa, 18 /12 07


Tradução e adaptação: Maria Helena Henriques Marques
Professora do Ensino Secundário

Os três segredos da qualidade de ensino





The Economist (20 de Outubro de 2007) resume um estudo da consultoria McKinsey acerca das chaves do êxito dos países que obtêm melhores resultados na informação PISA. A informação PISA (Programme for International Student Assessment), que a OCDE elabora em cada três anos a partir de exames realizados a alunos de 15 anos de numerosos países (mais de 60, na última edição), converteu-se na principal obra de referência sobre a qualidade do ensino no mundo. Ao fornecer resultados académicos normalizados, permite comparações internacionais que dão pistas acerca do que funciona ou não funciona na educação.

Sem dúvida, as chaves do êxito (ou do fracasso) não se descobrem à primeira vista. O dinheiro não é decisivo. A Austrália, que triplicou a despesa por aluno desde 1970, não consegue alcançar Singapura, que gasta menos que a maioria dos países. Os Estados Unidos ocupam o terceiro lugar inferior da classificação, apesar de desde 1980 quase ter duplicado a despesa por aluno e diminuído o número de alunos por professor a um mínimo histórico. Ao contrário, a Coreia do Sul está entre os quatro primeiros países em todas as provas, com umas aulas muito nutridas. E se os rapazes finlandeses são os primeiros na leitura e em ciências, e os segundos em matemáticas, não é porque passem o dia a estudar: de facto, têm menos horas de aulas que os seus contemporâneos de outros países.

  • Os professores são a chave

O “mistério” parece estar no facto de os factores decisivos para a qualidade do ensino não serem facilmente quantificáveis. O estudo de McKinsey conclui que os rasgos comuns aos países que encabeçam a tábua PIZA (Hong Kong, Finlândia, Coreia do Sul, Japão, Canadá) são estes três: contratam os melhores professores, tiram deles o máximo partido e intervêm quando os resultados dos alunos começam a baixar. Não é precisamente uma “revelação”: Não é isso que fazem, justamente, todos os países? A verdade é que não, disse McKinsey.

Todo o mundo está de acordo em reconhecer que os professores são uma peça chave; as palavras de um funcionário coreano citadas por The Economist: “A qualidade de um sistema educativo não pode ser melhor que a dos seus professores”. Segundo estudos realizados nos Estados Unidos, acrescenta a revista, se se seleccionam alunos de capacidade média e se atribuem a professores melhor classificados em 20% relativamente aos restantes, acabam no grupo dos 10% com melhores notas; se se atribuem a professores de um nível mais baixo na ordem dos 20%, acabam entre os de piores notas.

Estima-se que nos Estados Unidos os professores provêm, em média, da terça parte dos graduados universitários com mais baixas classificações. E algo semelhante ocorre noutros países. Ao contrário, a Coreia do Sul recruta os professores primários dos 5% dos melhores graduados, e Singapura e Hong Kong, dos 30% melhor classificados. E o segredo não está na paga, pois não lhes são oferecidos salários acima da média, enquanto que os países onde os professores ganham mais (Alemanha, Espanha e Suíça) não se destacam em qualidade.

Para conseguir os melhores há que ser muito selectivo, mas não de qualquer maneira. Muitos países formam grande número de candidatos que depois são seleccionados mediante a oposição de barreiras para entrar no ensino público. Os países com melhores resultados seguem outro método. Limitam os lugares de magistério nas escolas à procura real de professores, e gastam muito mais na formação dos que ingressam. Assim acontece, sobretudo, na Finlândia e Singapura; também na Coreia do Sul, mas apenas com os professores do ensino primário, que têm que preparar-se durante quatro anos em alguma das doze universidades com faculdade de Educação. Ao contrário, os professores do ensino secundário coreanos podem proceder de qualquer universidade ou colégio num total de 350, mas em cada ano saem 11 licenciados novos por cada vaga. Isto ilustra, dentro de um mesmo país, a diferença entre os dois sistemas: na Coreia, os professores primários têm grande prestígio, e os do ensino secundário não estão bem considerados.

  • Formação prática


Temos agora a segunda chave: uma vez conseguidos graduados brilhantes para incorporar-se ao ensino, têm de aprender a exercê-lo bem. Os países com melhor qualidade de ensino facilitam formação prática abundante aos recém-chegados à carreira docente e fomentam a formação permanente para todos. Por exemplo, em Singapura, os professores novos recebem a tutela de colegas com experiência que são nomeados para esse fim em todas as escolas; e todos dispõem de 100 horas anuais para formação. Na Finlândia, os professores distribuem-se em equipas para que colaborem: supervisionam mutuamente as suas aulas e têm uma tarde livre, por semana, para prepararem as lições em conjunto.

  • Correcção


A terceira característica distintiva dos países com melhores resultados está no que fazem quando as coisas vão mal. O mais importante é detectar os problemas, e dir-se-ia que, para isso, é necessário avaliar periodicamente os alunos, com exames normalizados: assim, vê-se como vai o sistema escolar no seu todo e descobrem-se as zonas ou escolas onde baixa o nível académico. Mas o estudo de McKinsey não se pronuncia a favor nem contra esse método, porque não lhe encontra relação clara com a qualidade. A rede escolar pública de Boston, uma das melhores dos Estados Unidos, faz um exame anual a todos os alunos; mas isso mesmo é feito também, embora nem todos os anos, em lugares com pior qualidade de ensino, como Inglaterra e Gales onde, além do mais, se tornam públicos os resultados. Em contrapartida, a Finlândia prescindiu quase por completo dos exames nacionais e não publica os resultados das inspecções.

Qualquer que seja o modo de descobrir os problemas, os países destacados intervêm rapidamente e sempre. A Finlândia é “número um” em professores dedicados aos alunos que ficam para trás. Por isso, num ano normal, um de cada três alunos recebe aulas individuais de apoio. Singapura ministra aulas extra a 20% dos alunos mais atrasados, com o consequente trabalho extra para os professores.

As teses de McKinsey parecem quase triviais, no entanto vão contra alguns pressupostos implícitos da política educativa, comenta The Economist. Assim, é corrente acreditar que “não é possível conseguir os melhores professores sem pagar salários altos; que os professores em países como Singapura gozam de elevado estatuto devido aos valores confucianos; ou que os alunos asiáticos se portam bem e prestam atenção às aulas, por razões culturais”. Em comparação, “as teses de McKinsey parecem optimistas:

  • conseguir bons professores depende da selecção e da formação;
  • a docência pode ser uma opção atractiva para os melhores graduados universitários, sem necessidade de pagar uma fortuna;
  • e, há remédio para as escolas e para os alunos que ficam para trás se forem aplicadas as medidas adequadas.

Fonte: The Economist

Tradução e adaptação: Maria Helena Henriques Marques
Professora do Ensino Secundário

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Fé e Razão:Duas formas de Conhecimento

Reduzindo-a à expressão mais simples, a fé pode ser definida “como a certeza de coisas que se esperam, a convicção de factos que se não vêem”. (Heb. 11.1).

A fé é entendida por filósofos crentes, como uma fonte de verdade, a par da razão. A razão, por sua vez, é a faculdade de raciocinar, de apreender, de ponderar, de julgar; a inteligência.


A fé não é racional no sentido de encontrar a sua origem nas capacidades da razão, mas torna-se racional porque, para se acreditar, temos de acolher com a inteligência e o coração a Verdade revelada.


Ambos são fontes de conhecimento, que não se confundem, nem anulam mutuamente, mas que se encontram na inteligibilidade da fé. São dois dons de Deus que se completam.
O conhecimento é a relação que se estabelece entre o sujeito que conhece ou deseja conhecer e o objecto a ser conhecido...


Baseando-se no conhecimento da situação cultural da nossa época, o Papa Bento XVI, fazendo uma breve análise, salientou que o Mundo e, de modo particular, o Ocidente, se caracteriza pela forte incidência de uma onda cultural laicista e ilustrada, que considera, racionalmente, válido apenas o que se pode experimentar e calcular.


No plano do comportamento, define-se por ter erigido a liberdade individual como valor supremo. A ética encerra-se nos confins do relativismo e do utilitarismo, pois exclui-se qualquer princípio moral que seja válido e vinculativo. Nesse esquema, Deus não tem lugar em muitos sectores da cultura ou da vida pública.

Depois desta sucinta análise o Papa conclui que “não é difícil ver que este tipo de cultura representa um corte radical e profundo não só com o Cristianismo mas também com as tradições religiosas e morais da humanidade”.

Esta corrente cultural mostra uma profunda carência e um grande desejo de esperança, que o Papa resume assim: “nesta era pós-moderna, é urgente uma nova evangelização”.


E citando a constituição apostólica de João Paulo II, “Sapientia christiana” em que manifestava idêntica preocupação, Bento XVI reafirmou que esse compromisso é muito urgente nesta época onde se adverte a necessidade de uma nova evangelização, que “precisa de mestres na fé, arautos e testemunhas do Evangelho, convenientemente preparados”.


Este objectivo primordial de BentoXVI, tem estado bem patente nos seus escritos, homilias e discursos, que evidenciam como procura dar a conhecer a Pessoa de Jesus Cristo – Deus e Homem – e fomentar a amizade com Ele.


A adesão crescente de crentes e não crentes a este empenho do Papa, bem visível na Praça de S. Pedro, é um sinal do “dom de línguas”, com que comunica a mensagem.

À semelhança de João Paulo II, Bento XVI tem insistido na necessidade de conciliar a fé e a razão, considerando-as “as asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da Verdade”...


João Paulo II lembrava também a importância da filosofia para progredir no conhecimento e, citando S. Tomás de Aquino, referia que a luz da razão e a luz fé provêm ambas de Deus e, por isso, não se podem contradizer entre si mas, ao contrário, são complementares.


Para Bento XVI, a fé apresenta-se como amiga da razão, uma luz potente que se infunde na nossa inteligência humana, podendo desempenhar o papel de análise crítica da mesma religião. Por outro lado, a razão aberta à busca da verdade, proporciona, na perspectiva cristã, uma base para o diálogo com outras crenças...


O discurso de Bento XVI em Ratisbona, pretendeu reafirmar isto: não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus, revela uma incompatibilidade total entre fé e violência. O Papa falava a gente da ciência e procurava demonstrar que a razão não pode expulsar Deus da vida e que a fé não pode separar-se da razão.


As citações proferidas naquele contexto, produziram mal entendidos. Mas o texto, tal como pretendia incluir Deus na ciência e no mundo contemporâneo com a inevitabilidade da razão, também recusava a espada como instrumento de implantação da fé. Posteriormente, Bento XVI, por ocasião do Angelus manifestou-se magoado pela interpretação distorcida das suas palavras. E recordou que o seu discurso era um convite ao diálogo franco e sincero, com grande respeito mútuo.

“O discurso que recordou a História, não visava ofender quem quer que fosse, mas apenas reafirmar a urgência da presença de Deus no mundo de hoje, proclamada pelo Cristianismo e pelo Islamismo, mas com a recusa total da violência como arma política ou religiosa”.


Ampliar horizontes


As relações entre fé e razão manifestam-se na vida e devem ser aprofundadas na formação individual; especialmente num tempo em que na educação se transmitem cada vez mais conhecimentos científicos, a formação cristã não pode descurar a sua base de racionalidade.
Os ensinamentos de João Paulo II e Bento XVI, são chamamentos que interpelam a cuidar a própria formação.


As leituras de qualidade podem ser uma ajuda indispensável para ampliar e melhorar os próprios horizontes do conhecimento. Uma excelente ajuda para a formulação de novos projectos, e que nos permite ajuizar melhor as informações veiculadas pelos meios de comunicação social.
Por isso, para reabilitar a razão e exercitá-la em harmonia com a fé, é decisivo que a educação que se recebe na família ou na escola ajude a apreciar, já desde a infância, a beleza do bem, dos comportamentos virtuosos e das obras integramente realizadas. Dos pais, professores e amigos depende que os jovens se afeiçoem cedo às boas leituras e exercitem cada vez mais essa participação no “Logos” divino que é a inteligência...


A nova evangelização deve ser encarada como uma atitude permanente do cristão. Uma atitude eloquente e eficaz uma vez que acontece na vida quotidiana e encontra sempre novas expressões, novos caminhos procurando impregnar de sentido e espírito cristão todos os ambientes, todas as encruzilhadas da vida na sociedade...


O Papa, Bento XVI com sentido da realidade sem pessimismo, tem manifestado que é necessário que se torne visível o grande “sim” que supõe a fé, o grande “sim” que Deus comunicou ao homem e à sua vida, ao amor humano, à nossa liberdade e à nossa inteligência.
Tornar visível, com obras, um Catolicismo positivo na nossa vida.



Maria Helena Henriques Marques
Professora do Ensino Secundário

A crise de liderança moral conduz à decadência...II


A sociedade portuguesa, civilizada, pacífica por tradição, já vai andando à deriva e começa a ser alarmante, preocupante, o crescente clima de violência que a comunicação social denuncia.

Mata-se sem contemplações pelos motivos mais fúteis que se podem imaginar, e vai-se acentuando um quadro de desumanização nas relações entre as pessoas, inclusivamente, nos meios familiares.

Muitas vezes nos temos referido a alguns dos crimes contra as crianças que, como todos conhecemos vão do abandono aos maus tratos, tantas vezes selváticos; não obstante a gravidade destes actos, sem qualquer justificação nem perdão, a Lei Penal continua branda, neutra, quase indiferente ao sofrimento das vítimas.

Mas nem só a punição severa resolverá a trágica situação.


São, com certeza, consequências de factores determinantes das malformações morais que por aí abundam, a promoção constante, nos grandes meios de Comunicação Social, das maiores aberrações do comportamento humano, como constatamos, diariamente, nos filmes – americanos e não só – emitidos pelos diversos canais televisivos.

Também será, certamente, o resultado de se ter retirado às escolas, em grande parte, a sua função essencial: a da formação integral dos cidadãos, incutindo nos alunos os princípios cristãos, em que se firma (ou devia firmar) a nossa civilização: da solidariedade, da caridade, da fraternidade, do altruísmo, num total respeito pela vida e pela dignidade de todos os seres humanos...

Mas até quando teremos de deixar que seja o Estado e só o Estado a promover a educação moral e cívica? Até quando esperar que se exaltem os valores espirituais, quando aquilo a que estamos a assistir é precisamente o contrário?

Sem sombra de dúvida, constatamos que é o próprio Estado que dá os maus exemplos ao facilitar e incentivar, além de outras, as práticas abortistas que, não obstante as justificações, constituem evidentes atentados contra a vida humana.

Tal como aconteceu em civilizações que nos precederam, o princípio do seu fim foi anunciado pelo desrespeito da vida humana.


Indicia a decadência das sociedades no que se refere aos costumes e, muito particularmente, nessa falta de respeito pela vida e pela dignidade de cada homem e de cada mulher, desde a concepção até à morte natural.




Maria Helena Henriques Marques
(Professora do Ensino Secundário)

domingo, 25 de novembro de 2007

A crise de liderança moral conduz à decadência I



No âmago da crise moral que nos últimos anos tem afligido a humanidade, há uma enorme falta de liderança moral, em todos os segmentos da sociedade humana, conforme o que é tristemente indicado pelas evidências crescentes de negligência ética, reveladas entre autoridades dos níveis mais altos da sociedade, tanto em instituições públicas como privadas, por todo o mundo.

Vários indicadores apontam nessa direcção mas, o mais evidente, é o desrespeito pela vida humana.

É impressionante que o maior dom de que todos somos titulares – o dom da Vida – ande por aí tão mal tratado!

A vida é o espaço e o tempo que nos cabe percorrer, e que por isso deve ser sempre orientada por um ideal elevado, elevador, que lhe dê sentido. Viver com sentido, deixando o rasto de utilidade, de compreensão, de concórdia..., semeando paz e alegria.

Uma vida com sentido é a daquele que sabe de onde vem e para onde vai. Daquele que, perscrutando o mundo maravilhoso da sua interioridade, descobre uma imensa riqueza potencial, em gérmen, à espera de ser desenvolvida.

Desenvolver essa interioridade é projectar uma imagem que causa admiração pelo vigor sereno com que actua.

§ pelo equilíbrio das suas manifestações, da suave firmeza das suas decisões;
§ pela sua cordial mas poderosa força de vontade,
§ pela sua paz e serenidade interiores que transbordam;
§ pelo seu saber-estar em toda a parte;
§ pelo seu poder prescindir, sem se alterar, do supérfluo e até do necessário, sem qualquer queixa;
§ pelo seu bom ânimo nas adversidades
§ e pela sua simplicidade quando a fortuna lhe sorri.

Viver assim, é viver a vida em profundidade, é viver de acordo com a marca da profunda sabedoria de viver.

Sabedoria de viver, imensamente enriquecida pela revelação cristã, que trouxe, além de profundos conhecimentos sobre o ser humano, um novo modelo de Homem – Jesus Cristo – (Homem e Deus), e as forças necessárias para viver de acordo com o modelo proposto. “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”...

Viver desta Vida, percorrendo esse Caminho, assimilando essa Verdade, é conquistar as virtudes que vão estendendo a ordem da razão e o domínio da vontade a todo o âmbito do agir. Concentram as forças do homem, que se torna capaz de orientar a sua actividade nas direcções que ele mesmo se propõe.

A própria palavra virtude, que é de origem latina, está relacionada com a palavra “homem” (vir)e a palavra “força” (vis). A grande força do homem são as suas virtudes, embora a sua constituição física possa ser fraca.

Só alguém treinado no exercício do bem pode guiar a sua vida de acordo com os seus princípios, sem ceder a cada passo, diante da mais pequena dificuldade ou de solicitações contrárias.

Pelo contrário, os pequenos vícios da conduta – o acostumar-se a não fazer as coisas quando e como devem ser feitas – enfraquecem o carácter e tornam o homem incapaz de viver de acordo com o seu fim último e de acordo com os seus ideais.

São pequenas escravidões que acabam por produzir uma personalidade medíocre a resvalar por um plano inclinado que pode conduzir ao abismo.

Desviar-se do Norte, da rota segura e certa, é andar à deriva, sujeito a todos os ventos e marés, à tempestade e, muitas vezes, à morte...

Maria Helena Henriques Marques
(Professora do Ensino Secundário)

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

A construção da disciplina interactiva na Escola



A sociedade tem vindo a transformar-se rapidamente nas últimas décadas, o que justifica que os modelos educativos ocidentais também tenham mudado.
Especialmente a partir de Maio de 68, passámos a assistir à imposição de uma concepção utópica e idealista, que considerava importantes as possibilidades dos alunos e desvalorizava os conflitos educativos.

Os métodos da educação tradicional passaram a ser substituídos por uma obsessiva democratização da escola a par de alterações funestas da pedagogia. Deste modo, na maior parte dos países que se deixaram arrastar por esta tendência, verificamos que o fracasso escolar e a deterioração do ambiente educativo estão na ordem do dia.

A família e a escola mudaram muito. Antes a família era cúmplice da escola. Actualmente, de um modo geral, muitos pais delegam na escola as suas próprias responsabilidades, demitindo-se completamente da sua autoridade e da missão de primordiais educadores dos seus filhos. Por um lado, os pais não se atrevem a educar os seus filhos e, por outro, a sociedade fomenta, especialmente, através dos meios de comunicação social, um amor-próprio descabido que deriva em cómoda autocompaixão e desleixo.
À Escola pede-se ou exige-se resultados!...

Mas a vida, a experiência têm-nos demonstrado as vantagens pedagógicas de uma educação baseada na segurança, na clareza, na autoridade e na disciplina. Sempre que na vida prática se reconhecem estes valores, ficam a ganhar, de modo especial, os alunos, que acabam por ver como se expandem as suas possibilidades humanas, sociais e intelectuais.

No entanto, tem faltado coragem para admitir e reconhecer que a exigência pode fortalecer e
que a super-protecção pode debilitar...
São as próprias crianças e os jovens que, normalmente, aceitam e valorizam muito mais do que parece, esta pedagogia, que não é, de forma nenhuma, sinónimo de desumanização, bem pelo contrário...

Por outro lado, a insegurança dos protagonistas da educação – pais e professores – contagia os alunos, que não vêem convicções sólidas em quem deveria motivá-los e educá-los!

Assim, não podemos perder de vista que a escola tem actualmente uma responsabilidade acrescida e uma importância fundamental na socialização das crianças e adolescentes que procedem, sobretudo, de famílias com um único filho (e que, por isso, podem ser hiper-protegidos), ou de famílias desestruturadas, que não recebem nenhum tipo de educação familiar.
Por tudo isto, os professores são unânimes em reconhecer que a função docente não pode reduzir-se apenas a garantir a ordem e a organização.
Se não impera um clima de autoridade, de trabalho e de disciplina – compatível com o oportuno sentido do humor, a amizade e a alegria – a educação estará a desvalorizar um dos seus mais importantes recursos.

É imperioso resgatar os valores do passado e estar abertos aos novos valores emergentes, em função das necessidades provocadas pelas contradições sociais, políticas, económicas e culturais, num processo de continuidade-ruptura, numa perspectiva dialéctica, visando o ideal:
  • uma disciplina consciente e interactiva;
  • uma disciplina construtiva marcada pela participação, respeito, responsabilidade na edificação do conhecimento, formação do carácter e da cidadania.

Maria Helena Henriques Marques
Professora do Ensino Secundário

sábado, 3 de novembro de 2007

De menores maltratados a menores delinquentes



Na Europa a delinquência juvenil preocupa cada vez mais


Perante factos violentos, protagonizados por pessoas cada vez mais jovens, fiscalistas, juizes e políticos ponderam, por vezes, a conveniência de baixar o limite de idade para a responsabilidade penal dos menores. Causam alarme excessivo os casos de delitos graves em que predomina a violência e intimidação das pessoas. O carácter proteccionista que a legislação teve sempre sobre menores choca cada vez mais com essa inquietação geral que produzem os actos ilícitos cometidos por rapazes cada vez mais jovens ano após ano.


O problema costuma atribuir-se em grande parte a um fenómeno de anomia, pelo crescimento da permissividade entre os jovens, que não aceitam constrangimentos familiares nem sociais, com um elevado grau de indisciplina escolar.


Chegam a produzir-se casos limite em que os pais – sobretudo em famílias monoparentais – se vêem forçados a transferir o poder paternal para instituições públicas, perante a impossibilidade de evitar o comportamento violento e agressivo de seus filhos.


Isto choca com medidas proteccionistas que privariam os pais de recursos mais ou menos clássicos para impor a sua autoridade. O Defensor do Menor da Comunidade de Madrid, em colaboração com a ONG Save the Children, chegou a propor em 2005 uma modificação do Código Civil espanhol para proibir todo o castigo físico dos pais aos seus filhos dentro do próprio lar. O actual artigo 154 faculta-lhes uma razoável e moderada correcção. Mas já se têm lavrado sentenças contra pais excessivamente violentos.

A protecção dos menores está actualmente no centro da preocupação internacional, nos seus diversos aspectos. Não pode separar-se do incremento de manifestações violentas demasiado precoces.

O diário Le Monde publicou no passado 4 de Julho uma extensa reportagem sobre a justiça de menores na Europa, em que propõe, como denominador comum, a tendência para uma maior severidade. Porque alguns dados são arrepiantes, como a percentagem de menores dentro do conjunto da criminalidade: está entre 15% e 20% ou mais no Reino Unido, Alemanha e França; entre 10% e 15%, na Áustria, República Checa, Polónia, Dinamarca e Suécia. Apenas a Finlândia e a Noruega estão abaixo de 5%.

Não parece influir nesses números a idade da responsabilidade penal, que é igual ou inferior à idade mínima para uma possível privação da liberdade. Respectivamente, são 10 e 10 no Reino Unido; 14 e 14 na Alemanha; 10 e 13 em França. Os três países nórdicos coincidem em 15 e15.

Aumenta a delinquência juvenil em todos os países ocidentais, conforme afirma o investigador Sebastian Roché:

“Pode-se falar de um fenómeno global, uma vez que aparecem as mesmas causas em todos os países:


desestruturação familiar,
abandono escolar,
frustração económica.

Os estudos ligados ao consumo de imagens violentas nos países ocidentais mostram também convergência: uma socialização dos jovens através dessas imagens de violência.”


Ao contrário, o magistrado italiano Luigi Fadiga referia-se à excepção transalpina num colóquio celebrado em 2006: “Uma das explicações é o peso da família, que continua a ser muito forte e é o lugar onde se resolvem os problemas, enquanto que a falta de um apoio de referência familiar é uma das causas da delinquência”.

Logicamente, um governo que comprova o crescimento da criminalidade, não pode pelo menos, deixar de ser mais repressivo. É o caso de Blair ou Gordon Brawn na Grã-Bretanha, ou José Luis R. Zapatero em Espanha. Igualmente em França, onde o Senado Francês tem estado a desenvolver um projecto de lei sobre reincidência, tanto de adultos como de menores, de modo a pôr freio à reiteração de condutas delituosas menos graves mas muito frequentes.

Em muitos outros países repetem-se as iniciativas para diminuir progressivamente a idade da responsabilidade penal.

Aceprensa, 25-07-2007


Tradução e adaptação: Maria Helena Henriques Marques
Professora do Ensino Secundário

Os Sentimentos


Certo dia a Loucura resolveu convidar alguns dos seus amigos para tomar um café em sua casa.
Após o café, para criar um ambiente alegre, propôs o seguinte:

– Vamos brincar às escondidas?
– Escondidas? O que é isso? – perguntou a Curiosidade.

– Escondidas é uma brincadeira. Enquanto conto até 100, vocês escondem-se. Quando terminar de contar, vou procurar onde se terão escondido e o primeiro a ser encontrado será o próximo a contar.

Todos aceitaram, menos o Medo e a Preguiça.

– 1,2,3,... – a Loucura começou a contar.

A Pressa escondeu-se primeiro, num lugar qualquer.
A Timidez, tímida como sempre, escondeu-se na copa de uma árvore.
A Alegria correu para o meio do jardim.

Já a Tristeza começou a chorar, pois não conseguia encontrar um local que lhe parecesse adequado para se esconder.
A Inveja acompanhou o Triunfo e escondeu-se perto dele debaixo de uma pedra.

Enquanto isso a Loucura continuava a contar e os seus amigos iam-se escondendo.
O Desespero ficou desesperado ao ver que a Loucura já estava no noventa e nove e ele sem conseguir um esconderijo...

CEM! – Gritou a Loucura. – Vou começar a procurar...

A primeira a ser encontrada foi a Curiosidade, que já não aguentava mais, querendo saber quem seria o próximo a contar.
Ao olhar para o lado, a Loucura viu a Dúvida em cima de uma cerca sem saber em qual dos lados ficar para melhor se esconder.

E assim descobrindo a Alegria, a Tristeza, a Timidez...
Quando estavam reunidos, a Curiosidade perguntou:

– Onde está o Amor?

Ora, ninguém o tinha visto...
A Loucura partiu a procurá-lo.

Procurou no cimo da montanha, nos rios, debaixo das pedras e o Amor não aparecia!...

Procurando por todos os lados, a Loucura viu uma roseira, pegou num pauzinho e começou a procurar entre os galhos, quando de repente ouviu um grito.

Era o Amor, gritando por lhe ter furado o olho com um espinho.
A Loucura ficou sem saber o que fazer.

Pediu desculpas, implorou pelo perdão do Amor e até prometeu segui-lo para sempre.

O Amor aceitou as desculpas.


Hoje, o Amor é cego e a Loucura acompanha-o sempre, para onde quer que vá...



Adaptação
Natália Rodrigues

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Motivação/Dificuldades de Aprendizagem (III)




Ensinar ou aprender? Aprender ou ensinar?

Era esta a questão que serviu de pretexto à mobilização dos contributos de Vgotski e outros pedagogos no sentido de se discutir se estávamos, ou não, perante uma falsa questão.


Em conclusão, podemos referir que consideramos a valorização do acto de aprender aqui expressa, como uma opção que confere uma maior centralidade ao aluno no âmbito do processo ensino-aprendizagem, assim como a atribuição de um outro papel aos professores porque, deste modo, os termos da relação entre o ensino e a aprendizagem são concebidos em função de outros pressupostos.


Por tudo isto, as interrogações formuladas remetem-nos para a necessidade da articulação entre o ensinar e o aprender que implica que se tenha de afirmar mais uma vez que as perspectivas inovadoras não pressupõem a recusa do acto de ensinar.


Procurando sintetizar brevemente a análise que nos propusémos desenvolver em redor do binómio "motivação/dificuldades de aprendizagem" e que se tem vindo a revelar como o fio condutor desta reflexão, somos levados a admitir que estas duas grandezas variam na razão inversa.


O termo motivação é definido como o processo que provoca certo comportamento, mantém a actividade ou a modifica e tem por fim estabelecer conexão entre o que o professor pretende ensinar e os reais interesses dos alunos.


É, por outro lado, incontestável que muitos alunos, face á proposta curricular, têm vindo a manifestar dificuldades crescentes de aprendizagem quer de natureza cognitiva quer de natureza afectiva.

Sendo assim, os objectivos da EDUCAÇÃO deverão ter como prioridade a formação de alunos que sejam...
  • autónomos

  • auto-suficientes

  • seguros de si mesmos

  • capazes de tomar decisões

  • que se aceitam a si próprios

  • que se sintam bem consigo mesmos

  • que encontrem a sua própria identidade na crise de adolescência

  • que saibam orientar-se

  • que saibam intervir no seio de uma sociedade em permanente mutação

Para isso é necessário desenvolver, previamente e de forma continuada, um auto-conceito e uma auto-estima intensamente positivos assentes no esforço por conseguir a excelência académica e as virtudes.

Assim a auto-estima surgirá como que por si própria. Assumir a sua transcendência é um pressuposto determinante de eficácia.

Portanto... MOTIVAR é promover nos alunos

  • o auto-conceito académico


  • a auto-estima


  • a capacidade de resolução da maior parte das dificuldades de que seriam portadores


  • o verdadeiro sucesso educativo


  • a auto-realização pessoal e social.


Maria Helena Henriques Marques

Professora do Ensino Secundário

Motivação/Dificuldades de Aprendizagem (II)



A - O que fazer? Como Fazer?


Fazer uma pedagogia diferenciada à escala de uma ou mais turmas, pode ser um trabalho de vários anos. Por isso é importante:

  • saber escolher
  • dar prioridade ao mais urgente
  • fixar objectivos razoáveis

  • limitar as ambições a certas noções fundamentais

  • construir e organizar materiais diversificados (tendo todos os alunos ocupados)

  • negociar regras de funcionamento (para obter uma dinâmica com um mínimo de disciplina)

Pretende-se cultivar um salutar espírito de cooperação


B - Como aprendem?


Considerando o pensamento de importantes psicólogos e pedagogos constatamos haver três níveis básicos de aprendizagem:

  1. Percepção - aprender factos, eventos e experiências

  2. Conceptualização - manejar e ier-relacionar conceitos, leis, e sistemas conceptuais

  3. Representação - imaginar, construir imagens mentais

São estes os níveis que determinam o verdadeiro sentido do que é o aprender e é neles que devem centrar toda a atenção do profissional do ensino.

De pouco nos adianta termos definidos nos programas de aulas grandes e eloquentes objectivos, se não se encontrar todo o processo mental que o aluno deve percorrer para os alcançar.

Sói-se afirmar que as sociedades só progridem na medida em que os seus elementos deixem de repetir; entende-se como principal finalidade da educação dar asas a quem tem mãos e mãos a quem tem asas.

Nesta afirmação reside toda a essência do processo de reivindicação para que, enquanto profissionais de educação, deixemos de ser meros transmissores do saber e passemos a ajudar o aluno a construir o seupróprio saber.

Assim todo o acto de ensinar a aprender deixa de estar marcado pelo alcance imediato de objectivos, para estar orientado pelo desenvolvimento de competências, capacidades e valores que o aluno deve trabalhar sob a forma de destrezas (desenvolvimento de elementos cognitivos) e de atitudes (desenvolvimento de elementos afectivos).

Da conjugação dos resultados alcançados em cada uma das vertentes resultará, numa segunda fase, a consecução dos objectivos definidos. Estas ideias implítas na teoria psicopedagógica de Vigotski começam a ganhar espaço, demonstrando-se que, no paradigma cognitivo-contextual a elas inerentes, pode estar o verdadeiro sentido da reinvenção dos processos de aprendizagem e ensino.



C - O saber com um fazer

Consultando um dicionário encontramos: "Aprender é adquirir conhecimentos".



A noção de aprender ou efeito de aprender constitui a aprendizagem. Neste sentido, é importante desencadear iniciativas capazes de potenciar experiências de aprendizagem a partir das quais se possam concretizar projectos de intervenção educativa que, de um modo geral, permitam

  • valorizar o protagonismo dos alunos enquanto produtores do saber

  • favorecer a construção de situaações significativas de trabalho

  • estimular as relações interpessoais (tanto no decurso desse processo como no das tarefas em que todos se possam envolver).




Maria Helena Henriques Marques

Professora do Ensino Secundário