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terça-feira, 4 de setembro de 2007

A crise de liderança moral




No âmago da crise moral que nos últimos anos tem afligido a humanidade, há uma falta enorme de liderança moral em todos os segmentos da sociedade humana, conforme o que é tristemente indicado pelas evidências crescentes de negligência ética, encontradas entre autoridades dos níveis mais altos da sociedade, tanto em instituições públicas como em privadas por todo o mundo.

Vários indicadores apontam nessa direcção mas, o mais evidente, é o desrespeito pela vida humana.

É impressionante que o maior dom de que todos somos titulares – o dom da Vida – ande por aí tão mal tratado!...

A vida é o espaço e o tempo que nos cabe percorrer, e que por isso deve ser sempre orientada por um ideal elevado, elevador, que lhe dê sentido. Viver com sentido, deixando um rasto de utilidade, de compreensão, de concórdia, semeando paz e alegria.

Uma vida com sentido é a daquele que sabe de onde vem e para onde vai.
Daquele que, perscrutando o mundo maravilhoso da sua interioridade, descobre uma imensa riqueza potencial, em gérmen, à espera de ser desenvolvida.

Desenvolver essa interioridade é projectar uma imagem que causa admiração pelo vigor sereno com que actua:

§ pelo equilíbrio das suas manifestações, da suave firmeza das suas decisões;
§ pela sua cordial mas poderosa força de vontade,
§ pela sua paz e serenidade interiores que transbordam;
§ pelo seu saber-estar em toda a parte;
§ pelo seu poder prescindir, sem se alterar, do supérfluo e até do necessário, sem qualquer queixa;
§ pelo seu bom ânimo nas adversidades
§ e pela sua simplicidade quando a fortuna lhe sorri.

Viver assim, é viver a vida em profundidade, é viver de acordo com a marca da profunda sabedoria de viver.

Sabedoria de viver, imensamente enriquecida com a revelação cristã, que trouxe, além de profundos conhecimentos sobre o ser humano, um novo modelo de Homem – Jesus Cristo – (Homem e Deus), e as forças necessárias para se poder viver de acordo com o modelo proposto. “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”...

Viver esta Vida, percorrendo esse Caminho, assimilando essa Verdade, é conquistar as virtudes que vão estendendo a ordem da razão e o domínio da vontade a todo o âmbito do agir. Concentram as forças do homem, que se torna capaz de orientar a sua actividade nas direcções que ele mesmo se propõe.

A própria palavra virtude, que é de origem latina, está relacionada com a palavra “homem” (vir) e a palavra “força” (vis). A grande força do homem são as suas virtudes, embora a sua constituição física possa ser fraca.

Só alguém treinado no exercício do bem pode guiar a sua vida de acordo com os seus princípios, sem ceder a cada passo, diante da mais pequena dificuldade ou de muitas e variadas solicitações contrárias.

Pelo contrário, os pequenos vícios de conduta – o acostumar-se a não fazer as coisas quando e como devem ser feitas – enfraquecem o carácter e tornam o homem incapaz de viver de acordo com o seu fim último e de acordo com os seus ideais.

São pequenas escravidões que acabam por produzir uma personalidade medíocre, a resvalar por um plano inclinado que pode conduzir ao abismo.

Desviar-se do Norte, da rota segura e certa, é andar à deriva, sujeito a todos os ventos e marés, à tempestade e, muitas vezes, à morte
...



Maria Helena Henriques Marques

Professora do Ensino Secundario






sábado, 4 de agosto de 2007

Estado de alerta: Pressentem-se no horizonte novos ventos de “cultura da morte”...




Depois do denominado “gigantesco retrocesso civilizacional” que significa a liberalização do aborto no espaço português, levado a efeito por uma minoria de 24% dos portugueses, em 11 de Fevereiro último, eis que se levantam novamente “vozes agoirentas”, “tenebrosas”, a sugerir a ampliação da cultura da morte, admitindo e/ou promovendo a eutanásia!

Onde estamos, e para onde nos querem encaminhar?!

A eutanásia, como todos bem sabemos, consiste numa prática através da qual se abrevia a vida de uma pessoa mais ou menos enferma, de maneira controlada e assistida por um especialista. Trata-se, no fundo, de uma “prática alternativa” aos imprescindíveis cuidados paliativos, que a dignidade da pessoa humana reclama e merece, como um dever grave de justiça, até ao momento sublime de uma morte natural que, essa sim, “é morrer com dignidade”...

A eutanásia representa uma complexa questão de bioética e de biodireito, uma vez que o primordial dever do Estado é a defesa e protecção da vida dos seus cidadãos.

A “eutanásia activa” concretiza-se nas acções que têm por objectivo pôr termo à vida, na medida em que é planeada e negociada entre o doente e o profissional que vai realizar o acto.

A “eutanásia passiva” por sua vez, não provoca deliberadamente a morte, no entanto, com o passar do tempo, conjuntamente com a interrupção de todos ou de alguns cuidados médicos, farmacológicos ou outros, o doente acaba por falecer. São canceladas todas e quaisquer acções que tenham por fim prolongar a vida. Não há por isso um acto que provoque a morte (tal como a eutanásia activa), mas também não há nenhum que a impeça.

Vários estudos têm vindo a divulgar que a maior parte das pessoas que solicitam os actos próprios da eutanásia activa não o faz pela dor física, mas por uma dor psicológica tratável. Isto demonstra o sentido de urgência da alteração do Serviço Nacional de Saúde, apetrechando-o de uma verdadeira e “humanizada” rede de cuidados paliativos, adequados, de forma personalizada, a cada situação.

É evidente que a maior parte ou a totalidade de alguns pedidos feitos pelos doentes poderiam e deveriam ser evitados, se existissem os necessários cuidados paliativos e não o “abandono” desses doentes terminais...
  • A ficção da “decisão voluntária”
Sabemos todos por experiência real que o instinto mais forte da natureza humana é o instinto de conservação da vida.

E conhecemos actualmente que, na imensa maioria dos casos, o desejo de suicidar-se não é consequência de danos corporais e dores extremas, mas sim a expressão de sentir-se abandonados. A medicina paliativa tem feito tais progressos, que as dores são quase sempre controláveis, em qualquer estado de enfermidade e, felizmente, não atingem o umbral do insuportável. Na maior parte dos casos, também a dedicação intensiva daqueles que prestam cuidados modifica o desejo de suicídio, produzindo antes a consciencialização de que a “nossa vida” continua a ser importante... O médico dedicado representa junto do doente a afirmação de que a sua existência continua a ser útil e solidária.


É precisamente nas situações de fragilidade anímica que pode aparecer o desânimo do doente, momentâneo, compreensível, associado a manifestações de fuga do sofrimento, mas que, na realidade, não são conscientes nem livres e que podem ser – e são-no muitas vezes – especuladas de forma catastrófica, por alguns profissionais de saúde que vão admitindo e esperando, secretamente, poder levar a cabo esse “desejo” inconsistente.

A realidade da intolerância frente aos débeis foi adquirindo, ao longo da história, uma dolorosa forma social e institucionalizada de legalidade.

São muitas as vozes que se têm atrevido a manifestar, com firmeza, esses atropelos da dignidade humana. Atropelos que chegam por vezes a constituir uma autêntica cultura da morte que, em todas as épocas, se manifestou na morte legal de inocentes.

A história recente mostra-o com crueza no genocídio hebreu, nas limpezas étnicas de tantos conflitos bélicos, ou no mais subtil e solapado tirar a vida a seres humanos antes do seu nascimento, ou antes de atingirem a meta natural da morte.

São sempre os membros mais débeis da sociedade os que correm maior risco diante dessa perigosa manifestação de intolerância: as vítimas costumam ser os não nascidos (aborto e manipulações genéticas); as crianças (comércio de órgãos); os doentes e idosos (eutanásia); os pobres (abusivas imposições de controle demográfico); as minorias, os imigrantes e refugiados, etc.

Porque será que se tem imposto este erro no mundo em tantas ocasiões? De onde provém o seu atractivo?

O atractivo do erro não provém do mesmo erro, mas sim da “verdade” – grande ou pequena- que nele palpita. Por isso o erro é sempre perigoso!

E a frágil “verdade” que está subjacente na cultura da morte – a que esta deve ter emprestado o seu atractivo é a pequena ambição: (desfazer-se do ancião ou do enfermo incómodos, eliminar uma nova vida que nos parece inoportuna, melhorar a qualidade de vida dos que permanecemos com vida) que, satisfazendo, fugaz e brevemente, as paixões humanas, obscurece e bloqueia a inteligência, até torná-la incapaz de perceber o erro que comete.
É paradoxal, que a “tolerância” tenha sido tantas vezes a bandeira desfraldada por aqueles que impunham esses erros.
Mas, por detrás da defesa que fazem dos direitos e das liberdades, esconde-se sempre um brutal atropelo dos direitos e liberdades mais elementares.

Detrás de uma máscara de tolerância, esconde-se a mais cruel e macabra prova de intolerância: a de não deixar viver o inocente.

Diante das, felizmente, crescentes possibilidades da medicina, esperamos que a deontologia médica desenvolva critérios de normalidade, critérios do que em justiça é devido a cada pessoa e, precisamente, aos velhos e doentes, em dedicação, cuidados e assistência médica básica; assim como os critérios relacionados com a idade, as perspectivas de cura e as circunstâncias pessoais: “as pessoas devem ser tratadas como precisam de ser tratadas!”

“Os Centros para atenção e cuidado de doentes terminais”, e não o movimento a favor da eutanásia é a resposta, humanamente digna, à situação em que nos encontramos.
Quando o morrer não se compreende e não se cultiva como parte do viver, significa que já se iniciou e se enveredou pela civilização da morte.




Maria Helena H. Marques
Professora do Ensino Secundário

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Flores de estufa


À nossa volta há sempre quem faça coisas erradas.

Por vezes juntamo-nos com os amigos e dizemos mal disto e daquilo, de quem fez isto e de quem fez aquilo.


Há sempre alguém que não foi suficientemente honesto, suficientemente corajoso, suficientemente leal. Alguém que pisou outros para subir na vida, ou abdicou dos seus princípios para obter uma vantagem, ou mentiu para se livrar de um problema. Alguém que realizou mal o seu trabalho.


Alguns desses actos são prejudiciais a outras pessoas, mas o autor dos erros é sempre vítima do seu comportamento. Quase sempre é ele quem mais sofre: de uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde.


Quando deixamos de ser crianças, torna-se bem difícil viver! Caem sobre nós tormentas vindas de fora e de dentro. Quantas vezes sucede que os nossos actos se viram contra nós e se agigantam e nos perseguem pela vida fora! Quantas vezes sentimos saudade do colo da mãe, do braço forte do pai, da humildade perdida que nos permitia aceitar que nos guiassem em cada situação...


Viver é difícil. É preciso resistir. E é preciso, também, ter luz e força: saber o que fazer e ser capaz de o fazer. E nós, que às vezes nos juntamos e falamos das fraquezas dos outros, temos estado também em situações que nos pediam algo de valentia, dignidade, coerência com o que pensamos. E nem sempre fomos capaz de fazer o que devíamos ter feito.


Existe uma distância entre considerarmos correcta uma determinada atitude e actuarmos com correcção. E essa distância só a custo pode ser percorrida.

A vida moderna ofereceu-nos muitas facilidades: simplificou certas tarefas. No entanto, no que diz respeito aos nossos comportamentos, carácter, virtudes - à nossa qualidade enquanto pessoas - tudo continua a passar-se como com os nossos antepassados. Continua a ser difícil ser-se honesto, trabalhador, bom marido, boa mãe; o amor e a amizade continuam a ser tarefas exigentíssimas.

Sucede, porém, que é nestes aspectos que se joga a felicidade dos homens. De pouco me serve, para ser feliz, o facto de poder ir tomar café a Londres e voltar para o almoço, ou ter a possibilidade de assistir a um importante jogo de futebol comodamente instalado na sala de estar da minha casa, se o meu egoísmo me afastar diariamente dos outros. Ou se a consciência me acusar de ter conquistado dinheiro e bem-estar à custa de prejudicar outras pessoas.

A felicidade continua a exigir de nós comportamentos que não são compatíveis com a facilidade. Não nos tornamos felizes carregando num botão. É preciso subir montanhas, insistir em esforços prolongados; acreditar, até ao heroísmo, na lentidão. Por vezes, reunimos todas as forças e não sabemos se aguentamos até ao fim do dia.



Quando tentamos aplicar receitas fáceis àquilo em que se joga a nossa felicidade, não resolvemos nada. Essas "soluções" simples para dificuldades grandes acabam por ser formas de fugir e não de enfrentar: semeiam frequentemente tragédias em nós e à nossa volta, ainda que só se notem mais tarde, e transferem o nosso problema pessoal para o terreno pantanoso das torturas interiores, dos remorsos, da depressão, do vazio, do desespero.


Aqueles que foram - que fomos - fracos e estão a pagar por isso precisam de apoio, mas, olhando para diante, o que é preciso é formar homens fortes. Os nossos filhos devem ser mais fortes do que nós, mais capazes de serem felizes.


Alguns pais e educadores costumam, infelizmente, empenhar-se em tirar as dificuldades da frente das crianças e dos jovens, em vez de os ajudarem a tornarem-se fortes para as enfrentar. Dessa forma preparam seres frágeis, que têm, durante certo tempo, uma existência ociosa e doce, mas estão destinados a sucumbir à mais leve aragem da vida. Dessa forma se tornam responsáveis por uma espécie de flores de estufa, condenadas por atrofiamento à incapacidade de viver a vida como ela é.


Não é verdade que possamos eliminar da vida as grandes contrariedades, as decisões custosas, a doença, o esforço quase insuportável, a dor física e moral, a morte. Seremos felizes com eles ou não seremos felizes nunca. A vida é de tal maneira que o homem deve erguer-se nela como o castelo. Deve ser construído, pedra a pedra, de forma a permanecer no seu lugar quando sopram ventos inesperadamente fortes; de forma a cumprir aquilo que dele se espera, aquilo a que se comprometeu, aquilo que o torna feliz.



http://www.aldeia.pt/ (Paulo Geraldo)

terça-feira, 31 de julho de 2007

Notícias de Portugal



Em 2005 nasceram 109 457 bébés e em 2006, 105 351.

Até 2050, Portugal poderá perder um quarto da população. Só existirão 7,5 milhões de portugueses. Nessa altura ,até 15 anos só existirão 9% da população, enquanto que com mais de 65 serão 36%.

O número médio de filhos, por casal, desceu para 1,36 enquanto que o número de idosos, com mais de 80 anos, duplicou em menos de 20 anos.

Portugal apresenta a mais baixa taxa de natalidade da Europa e uma das mais baixas do mundo.

Não obstante esta realidade, é o país com menos incentivos à natalidade.

Senão vejamos:


A Alemanha concede um subsídio variável entre os 4 200,00 € e os 25 000, 00 € mensais, durante 14 meses.

A Bélgica concede um subsídio de 1 064,00 € para o primeiro filho e 880,00 € para os restantes.

A Suécia dá, até aos 16 anos, 114,00 € por mês.

A Noruega, 122,00 € por mês, até aos 18 anos.

O Luxemburgo, no caso de um único filho, os pais recebem 181,00 euros mensais. Se forem dois filhos, receberão 429,00 €, com três sobe para 780,00 € e com quatro 1 130,00 €, por mês.

A Holanda concede entre 190,19 € e 271,10 € até aos 18 anos.

A Grécia dá um prémio de 5% sobre o salário e outro especial para as famílias com mais de qautro filhos.

Em Portugal, o Governo acabou de atribuir um novo abono de família no valor de 99,00 €, por mês, a partir de Setembro, para as mães grávidas do 3º ao 9º mês, desde que tenham um rendimento igual ou inferior a 189,30 €/mês (1º escalão). Para as mães que auferem o salário mínimo (403,00 €) receberão 53,oo € e a grande maioria apenas 10,36 €, mensalmente.

De igual modo, os abonos oscilarão entre os 130,62 € para o 1º escalão e os 32,28 € para o 5º escalão (famílias com rendimentos entre 994,65 € e 1989,30 €), durante 12 meses.

Notícias de Espanha









Em 2050 a Espanha será o país com maior número de idosos do mundo.


Para evitar um "envelhecimento" do país, o governo espanhol pagará às mulheres, uma quantia de 2 500,00 euros para que possam ter filhos.


Desde a última segunda-feira, as mães do país podem solicitar a ajuda de custo estabelecida pelo governo para cada filho nascido ou adoptado a partir das 00.00h do último dia 3 de Julho.

O "Cheque-bebé" pretende ser uma proposta do actual governo de José Luiz Rodriguez Zapatero à crise populacional espanhola."Para continuar na senda do progresso, a Espanha precisa de mais famílias e com mais filhos. E as famílias precisam de mais apoio para ter esses filhos e de mais recursos para criá-los", tal foi a justificação dada durante o anúncio da medida no Congresso Nacional.


Perante a crise de natalidade, vários países europeus apoiam, financeiramente, as famílias de modo a terem mais filhos, pois que em todo o continente, já há mais idosos que crianças.


Em 1980, o número de crianças superava o de idosos em 36 milhões.


Em 2004, os maiores de 60 anos superaram numericamente os menores de 14.


A Espanha foi o último país a aderir à ideia do pagamento universal directo por filhos. Apesar disso, o país já incentivava a formação de famílias de outras maneiras.


Para as mães trabalhadoras, o governo dá 100 euros mensais até que o filho complete três anos.
É oferecido ainda um pagamento único de 450 euros para os filhos a partir do terceiro.
Quando a mãe tem um parto múltiplo ou uma família adopta, simultaneamente, dois ou mais filhos, tem direito a uma ajuda calculada a partir do número de filhos e do salário mínimo espanhol, cerca de 570,60 euros mensais.




Madrid, 17/07/2007

“A baixa natalidade não é progressista”





Phillip Longman, especialista em políticas demográficas, membro da Fundação Nueva América, defende numa entrevista para “Books and Culture” (Maio-Junho de 2007) que a descida da natalidade deveria ser uma preocupação para todos.

Há cerca de três anos, Longman publicou o livro “The Empty Cradle” – “O berço vazio” – onde analisa as consequências económicas, políticas e sociais da baixa fecundidade.

Nessa entrevista assinala que, a população mundial continua a crescer muito em termos absolutos (uns 77 milhões de pessoas por ano); mas a descida da natalidade é universal, o que significa que agora há menor número de crianças com menos de cinco anos que em 1990. A fecundidade está abaixo do umbral de substituição das gerações praticamente em todo o mundo, com excepção da África Subsariana. A este ritmo, a população mundial começará a diminuir ainda em vida dos que actualmente são jovens.

“Isto”, acrescenta Longman, “não é de todo mau. Para as nações, como para os indivíduos, não ter filhos apresenta muitas vantagens, pelo menos até que se seja velho”.
Muitos economistas acreditam que a descida da natalidade foi um dos factores que facilitou o desenvolvimento económico do Japão e de outros países asiáticos ao reduzir a taxa de dependência. Porém com o tempo, o envelhecimento da população traz novos problemas e o principal é que cada vez há menos activos para sustentar um maior número de idosos, o que afecta tanto as famílias como a Segurança Social. “Se alguém não tem irmãos, como se verifica com frequência em grande parte do mundo, não terá com quem compartilhar o encargo de cuidar dos pais quando estes forem mais velhos”.

Não é habitual ouvir tais advertências por parte de alguém com a mesma tendência ideológica de Longman. Ele próprio reconhece que “a maior parte dos que se chamam “progressistas” não consideram que a baixa natalidade seja um problema”. Uns acreditam que assim haverá mais recursos para os pobres; outros, como os ecologistas, consideram positivo para o meio ambiente que diminua a população; determinados grupos como “feministas, gays e, em geral, os que não querem ter filhos costuma soar-lhes a ameaça a ideia de que a sociedade necessita de mais crianças”.

Para Longman, todos esses argumentos são falsos: “... Nos Estados Unidos, o ar e a água são mais limpos hoje que em 1940, quando a população era apenas metade da actual. É que o aumento populacional estimula a usar os recursos de maneira mais eficiente e mais limpa... Analogamente, o aumento de população levou a descobrir como melhorar o rendimento das culturas”. Deste modo, “a produção de alimentos por pessoa é mais alta que nunca, mesmo que a população mundial ultrapasse os seis mil milhões de habitantes”. Além disso, “nos Estados Unidos existe, actualmente, uma maior superfície de bosques do que no século XIX, graças ao facto de serem necessários muito menos terrenos para cultivar”.

Por outro lado, “os progressistas costumam esquecer que muitas das suas opiniões sobre a reprodução humana, como o “direito de escolha da mulher”, apenas obtiveram apoio suficiente quando o medo da superpopulação começou a empapar a cultura nos anos sessenta e setenta.
Também esquecem que se eles mesmos recusam ter filhos, o futuro estará nas mãos dos que militam no grupo contrário.

Por último, os progressistas esquecem que se a população não cresce, as suas queridas “jóias da coroa”, o Estado do bem-estar e a Segurança Social, tornam-se insustentáveis”.
E quem são os que têm famílias numerosas? – pergunta Longman. “A resposta mais exacta é a seguinte: são as pessoas que têm profundas crenças religiosas”. Por exemplo, na Europa, disse Longman, estima-se que a diferença de fecundidade entre crentes e não crentes seja de 15% a 20%.

E Longman, precisa “nem todos os nascidos em famílias profundamente religiosas o serão por esse facto; mas muitos sim, e então é mais provável que também eles tenham filhos. Assim sendo," os crentes começam a herdar a sociedade por retirada dos seus “rivais”. A população total do Ocidente talvez baixe ou estagne por algum tempo; mas uma parte desproporcionada dos que ficam serão partidários convictos da causa de Deus e da Família”.

Aceprensa. 2/05/2007



Tradução e adaptação: Maria Helena H. Marques
Prof. do Ensino Secundário

terça-feira, 17 de julho de 2007

Famílias rebeldes e numerosas



As mães e os pais necessitam de um arsenal de ideias e frases para responder à mentalidade anti-natalista.

Quem tem filhos encontra-se na primeira linha de fogo da guerra cultural. Contrastando com o ditado “um filho é uma bênção”, há casos de uma patente hostilidade.

Maria López e seu marido, Alex, recebem mais sorrisos do que más caras, mais elogios que menosprezo quando se dirigem ao restaurante na capital do Canadá, Otava, com os seus quatro filhos. Mas ficam adirados por também ouvirem críticas.

Num mundo em que a maioria nos tem ensinado que, quando não temos nada agradável para dizer, é melhor não dizer nada, não deixa de ser revelador que as pessoas condenem abertamente as famílias por tomarem a decisão de terem mais um filho quando, segundo parece, não se deve ter mais de dois.

Numa outra ocasião, uma mulher, referindo-se a um homem com cinco filhos, disse a Maria López: “Será que este não ouviu falar de controle de natalidade?” López respondeu-lhe do modo mais suave que pôde: “Não defende a liberdade de escolha? Pois isto foi o que ele escolheu”.

  • Frases com gancho
Na era das frases curtas com gancho na batalha das ideias, as mães e os pais encontram-se na primeira linha de fogo quando tentam defender a família. Como pai de quatro filhos que sou, estava com um pequeno grupo de famílias canadianas, quando a conversa girou para o tema da hostilidade. A nossa conversa converteu-se numa sessão estratégica improvisada acerca de como responder de modo coerente. Estávamos de acordo em que, depois do insulto, o melhor é actuar com rapidez. Os atacantes, com o seu sorriso complacente, na realidade não querem discutir a filosofia da norma não escrita dos dois filhos; ao contrário, os pais ofendidos desejam responder prontamente com uma máxima que conduza a uma reflexão posterior. “Creio que o melhor presente que podes oferecer a um menino é dar-lhe irmãos” foi a resposta ganhadora.

Agora, imagine que tem, por exemplo, dez filhos.
Um casal do Texas com dez filhos conta que a maior parte das pessoas fica maravilhada quando os vê. Num restaurante, uma empregada pergunta-lhes a que acampamento pertence o grupo. De uma outra vez, perguntaram-lhes: “consideram-se pessoas responsáveis tendo dez filhos?”

A mãe, Catherine Musco Garcia-Prats, respondeu: “Não medimos o nosso sentido de responsabilidade pelo número de filhos que temos, mas sim pelo que fazemos com eles”.

Por esta resposta se nota que tem prática em responder às críticas. Quando lhe perguntam se tem tempo para amar a tantos, Garcia-Prats responde: “O amor multiplica-se. Cada um deles conta com nove irmãos que o adoram”.

Eu deixei de dizer que ter filhos significa contar com alguém que venha ver-me quando for velho. No fundo, é uma resposta egoísta. Prefiro dizer que as crianças convidam ao sacrifício e estimulam a bondade das pessoas. Os meninos fazem do mundo um lugar melhor porque obrigam os seus pais a amadurecer ao fazer-lhes pensar nas necessidades dos demais.
  • O recurso mais valioso
Se dissipamos a cortina de fumo, veremos que os índices de natalidade mostram como a sociedade actual é contrária às crianças. Um país necessita de um mínimo de 2,1 filhos por mulher (como nos Estados Unidos) para sobreviver. Uma sociedade que ama as crianças não tem uma taxa de fecundidade de apenas 1,5 filhos por mulher, como no Canadá, ou de 1,3, como em Espanha, Itália e Grécia. De facto, toda a Europa tem populações implosivas, a julgar pelas suas taxas.

Até há pouco tempo, quando numerosos países ocidentais se encontraram com a crise de natalidade, não se oferecia qualquer tipo de benefício fiscal às famílias que geravam o recurso mais valioso: a geração seguinte. Em quase todos os países ocidentais, momentos depois de uma mulher ter dado à luz uma criança, uma enfermeira dá-lhe uma palestra sobre métodos anticonceptivos. As Nações Unidas põem fundos à disposição da organização de planeamento familiar Planned Parenthood, que gasta mais dinheiro em pôr fim às gravidezes que em qualquer outra coisa, e quando os casais têm filhos, escondem esses recursos. Enviam-se as crianças para os infantários, mas não há nenhum adulto que levante a mão quando se pergunta: "Quem teria preferido o infantário a estar com a sua mãe quando era menino?"

O mundo ocidental padece algo pior que um desdobramento da personalidade: o que é uma bênção para uns, supõe uma carga para outros. Quando as duas partes se encontram, os acontecimentos podem dar uma volta curiosa. Uma pessoa conhecida levou os seus cinco filhos às compras. Quando o funcionário da caixa se inteirou de que todos os meninos eram dela, comentou: “há grandes avarentos”. Que estranho!

Mas os comentários depreciativos de que são alvo as mães, em muitos casos não vão dirigidos a elas, mas sim à pessoa que os pronuncia. São justificações para a mulher que decidiu não ter filhos e agora se arrepende, mas que esperou demasiado.

Geralmente, a hostilidade dos homens não é mais que o mesmo egocentrismo de sempre. Encontrei-me com esta situação pela primeira vez quando o meu primeiro filho tinha seis meses e o levei a um restaurante onde me encontrei com pessoas conhecidas.

Para o jovem casal que tinha ao lado, ter família não entrava nos seus planos devido às consequências para a figura dela, a vida sexual de ambos, as noites de hóquei dele e os seus planos de viagem em conjunto. Ele inclinou-se para nós para expressar a sua opinião: fazendo uma cruz com os indicadores das mãos, colocou-os em frente da cara do meu filho, como para proteger-se de todo o mal, e anunciou desafiante que, nas suas vidas, os meninos estavam absolutamente, fora de toda a discussão. Ela não disse nada. Vendo agora este episódio, à distância, creio que esta cena foi uma mensagem para ela, não para mim.
  • Aliados secretos
Mas esta moeda tem também uma cara alentadora.
Na guerra cultural, as famílias têm os seus aliados secretos. Quando, de repente, aparecem uns desconhecidos que dizem "tem uns meninos preciosos" ou "você é valente" ou "que sorte tem", ao pai abatido eleva-se-lhe a moral como a um soldado nas trincheiras depois de escutar que os reforços estão a caminho. Agora, faço um esforço consciente para felicitar os pais e mães com filhos pequenos, para os ajudar a abrir uma porta ou para levar o carrito. Um sorriso cúmplice que diga “a paternidade não é para pusilânimes” é, por vezes, o elixir que um pai necessita para superar um desastre infantil.

Por causa de uma série de circunstâncias complicadas, há pouco tempo a minha mulher teve de ir sozinha à igreja com a nossa filha pequena. No final da Missa, a pequena Catarina chorava tão alto que muitos voltaram a cabeça. Minha mulher corou e pareceu-lhe eterno o caminho até à porta. Mas o importante neste episódio foi que um desconhecido se aproximou dela, felicitou-a por ter solucionado o problema e disse-lhe que sabia que a sua tarefa era difícil. Apesar do mal que tinha passado, quando me contou mais tarde, elaestava radiante.

Nunca é demais que nos dêem ânimo. No mundo actual, nós pais e mães necessitamo-lo mais que nunca.

In Aceprensa, 20-06-2007

Tradução e adaptação: Maria Helena Henriques Marques
Professora do Ensino Secundário

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Vontade: Força, Poder, Liberdade... Senhorio!


O processo de humanização do ser humano, consiste no desenvolvimento de um recto comportamento, que respeite e cumpra os deveres específicos da natureza humana. Esta humanização não se alcança sem auto exigência, sem esforço pessoal, sem a educação da vontade.


A educação é uma perfeição que se adquire através do desenvolvimento adequado das faculdades especificamente humanas: memória, inteligência, vontade, afectividade. Mas toda a educação se faz através da vontade, na medida em que comanda toda a vida psíquica. A bondade e utilidade das outras faculdades e capacidades dependerá do modo como sejam utilizadas pela vontade.
O problema crucial da educação é a educação da vontade.


Vontade que deve ser educada sempre, em todas as épocas e em todas as pessoas. Na sociedade actual – sociedade de um modo geral permissiva – não se valoriza a vontade e, por isso, não se educa.


Esta omissão educativa tem consequências por demais evidentes na conduta das crianças e dos jovens. Muitos deles são pessoas de vontade débil, com as seguintes manifestações:


· Incapacidade para tomar decisões pessoais (indecisão e dúvidas permanentes);
· Incapacidade para actuar;
· Incapacidade para continuar a tarefa iniciada.


Essa falta de vontade conduz à fuga dos problemas habituais que surgem em qualquer vida, para se refugiarem em múltiplas formas de evasão:


· Música estridente
· Velocidade
· Álcool
· Droga, etc.


Não dispõem de condições para enfrentar problemas, para conceber e elaborar projectos e aceitar compromissos. Vivem o momento presente e evitam tudo o que lhes pode complicar a vida. A aspiração máxima é a de uma “vida tranquila”. Mas por experiência todos constatamos que a vida sem problemas ou não existe ou não é vida.


A ausência da educação da vontade tem vindo a originar actualmente diversas alterações e doenças da vontade, como por exemplo: a abulia, apatia, dispersão; a astenia (cansaço anterior ao esforço); a ansiedade, a conduta em função do capricho... Tudo isto tem repercussões imediatas e a médio e longo prazo.


Em primeiro lugar, são jovens que sempre argumentam desculpas. Manifestam um relaxamento generalizado no esforço para aprender.


As causas desse relaxamento residem, em grande parte, na menor exigência dos pais, associada à influência da televisão, que oferece uma informação passiva em que tudo é fácil... Parece que tudo “vem dado” pelos vídeo-jogos, Internet, etc.. Um mundo cada vez mais cómodo que exige menos esforço físico, quase reduzido ao digital, à ordem dada em voz alta, convida à lassidão...


Os meios de comunicação social desempenham um papel negativo; há programas medíocres que criam nos jovens falsas expectativas de conseguir, sem esforço, uns objectivos ambiciosos. Eles, sem dúvida, comprovam que na vida real há que trabalhar muito para atingir as metas, e que nem sempre irão conseguir o que desejam.


O esforço aprende-se, ensina-se e valoriza-se.


É necessário exigir desde muito cedo a colaboração e a prática da superação. Associar o esforço com a recompensa. Temos de educar para o esforço colectivo começando pelo nosso.
Somos modelos de aprendizagem, devemos ter muito em conta os nossos comportamentos, ensinar com o exemplo; se lhes chamamos a atenção por algo, deveríamos pensar se nós faremos o mesmo; se damos instruções, poderiam ir acompanhadas de demonstrações práticas.
Dar exemplo, sim! E educar no esforço diário, no crescente fortalecimento da vontade no que se refere ao aspecto afectivo, intelectual, desportivo, cultural, psicológico ou espiritual.


Há que aumentar o nível de exigência pedindo-lhes autonomia e responsabilidade.
No que à escola diz respeito, é necessário estabelecer metas, inocular o prazer de aprender, tornar o currículo atractivo, o poder saber mais, o entender as coisas, o poder explicá-las...


A valorização dos pais é essencial. É um erro dos adultos manifestar que o seu trabalho é mais meritório, intenso e esgotante que o dos adolescentes. Apreciemos o seu esforço, o seu progresso. Pensemos que o rendimento académico é importante, mas não é a balança que calibra a importância global dos jovens.


A prática desportiva é um hábito magnífico para desenvolver o esforço e a constância. Mas cabe aos pais e outros educadores a importante missão do desenvolvimento da vontade das crianças e jovens no sentido do dever. Quando isto não foi feito, é urgente induzir esses valores, privando-os de algumas comodidades e benefícios. E sendo intolerantes com a preguiça.


Não se pode resolver tudo aos filhos; deve-se antes propor que se esforcem de modo a serem capazes de resolver as suas próprias dificuldades.

Deve-se afastar a enganosa e simplista mensagem de que o êxito só se consegue pela “sorte” e desmistificar o seu conteúdo.

Para conseguir o êxito, é necessário acreditar em si próprio, aplaudindo o valor do esforço e da superação.


Maria Helena Henriques Marques
Professora do Ensino Secundário

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Super-amados



São eles, são os nossos filhos. E nós somos os pais mais zelosos, por isso dormimos de consciência tranquila.

Gostamos mesmo muito destes meninos. Temos muito orgulho neles. Planeámos tudo cuidadosamente, e não vamos ter mais filhos para que nada falte a estes. Damos-lhes tudo. Tudo aquilo que merecem, tudo o que nós nunca ousámos sequer desejar na nossa infância, pois os nossos pais não tinham, infelizmente, as mesmas possibilidades que hoje nós temos.

Não sem esforço: Deus sabe os sacrifícios que por vezes fazemos para conseguir dar-lhes o que há de melhor. Deus sabe também o que passamos para lhes evitar as contrariedades.

Suportamos calados as suas birras, os seus amuos e atendemos de imediato às suas exigências. Não iremos repetir os erros das gerações anteriores, já passou a era da autoridade, agora os tempos são outros. Queremos que os nossos filhos cresçam livres da opressão a que os nossos pais nos sujeitaram.

Não lhes impomos as obrigações domésticas que tivemos de cumprir, de fazermos a nossa cama e arrumarmos as nossas coisas. Eles têm hoje muitas solicitações em casa que antigamente não existiam, como a televisão, a internet e as consolas de jogos, e por isso não podem perder tempo com essas tarefas.

Nós fomos obrigados a levar a cabo missões demasiado pesadas para simples crianças: buscar água à fonte, despejar o lixo, ajudar os irmãos mais novos a vestirem-se ou dar-lhes de comer, imagine-se que até nos faziam varrer o chão.

Damos-lhes a liberdade de fazerem as suas opções desde muito pequenos e procuramos corresponder aos seus anseios, desde a hora a que se devem deitar até aos alimentos de que mais gostam, que todos os dias preparamos para o jantar. Levamo-los connosco às compras, deixamo-los escolher os presentes que vão receber nos anos e no Natal, e não resistimos por vezes a dar-lhos de imediato, pedindo nova sugestão para a prenda a oferecer na data própria.

Tentamos nestes casos não olhar a custos, não queremos que fiquem com a impressão de que não podem ter as mesmas coisas que os seus colegas.

Tomamos todas as precauções para que não apanhem frio, não andem à chuva e não transpirem demasiado quando está muito calor. Temos o cuidado de os deixar todos os dias à porta da escola e não vamos embora sem nos certificarmos de que entraram e que o portão ficou fechado. Somos conscienciosos, e alertamos a escola para as deficientes condições de segurança e para os todos os potenciais riscos, pois sabemos que aquelas cabecinhas têm uma imaginação prodigiosa, sobretudo quando se trata de disparatar.

Acorremos em sua defesa e evitamos as suas quedas, todas as vezes que tropecem nas dificuldades da vida. Apagamos cuidadosamente os seus erros para que não tenham que sujeitar-se às críticas e comentários alheios.

Tentamos por tudo escolher-lhes as companhias, sabemos bem como podem influenciá-los negativamente. Queremos que fiquem nas turmas melhores, junto com os filhos dos nossos amigos, longe de gente diferente e estranha, com modos de vida para nós esquisitos ou maneiras de pensar desconhecidas.

Não queremos também que se deparem com a crueldade da natureza que produz crianças com dificuldades e diferenças, pelo que procuramos evitar contactos muito próximos. Terão tempo mais tarde para encarar a dura realidade.

Exigimos que a escola os ensine a estudar e a fazer os trabalhos de casa,
lhes incuta as noções de cidadania
e que os ajude a protegerem-se das doenças sexualmente transmissíveis e gravidezes indesejadas.

Foi nossa a vitória
neste campo, com a
implementação do estudo acompanhado,
da formação cívica
e da educação sexual nas escolas.

Foi nossa a vitória da criação de uma escola a tempo inteiro,
onde os nossos filhos são educados de uma forma abrangente e global.

Compramos-lhes computadores e telemóveis de última geração, roupa de marca, queremos que eles se sintam integrados entre os seus amigos, e sabemos que essas coisas são importantes para eles. E nesses computadores até mandamos instalar uns programas daqueles que impedem que eles visitem sítios impróprios para a idade deles.

Damos-lhes todos os dias um dinheirinho para que possam comprar um bolo e um sumo e, no Verão, um gelado. Não hão-de sentir-se como nós, quando ficámos a ver aquele menino do papá, que tanto esbanjou naquela visita de estudo, a comprar recordações e a encomendar o mais vistoso bolo que havia na pastelaria e que desprezou depois, porque era enjoativo.

Não.
Os nossos filhos hão-de ser respeitados e reconhecidos pelos colegas, hão-de ter muitos amigos, não queremos que sofram as angústias por que passámos na nossa adolescência por não termos a certeza de sermos aceites pelo grupo, porque não saíamos à noite ou não tínhamos namorados.

Serão miúdos cheios de sucesso toda a sua vida, terão uma profissão digna e nunca sujarão as suas mãos ou chegarão a casa cansados, transpirados, sujos. Ganharão o suficiente para terem quem faça por eles as tarefas menores.

Tivemos uma infância difícil, uma juventude complicada. Tudo faremos para que os nossos filhos cresçam sem se cruzarem com as dificuldades que nós tivemos que enfrentar.


Enganamo-nos ao pensar que os estamos a ajudar a crescer retirando-lhes os obstáculos do seu percurso. A vida real não é fácil, mas as pedras que encontramos no nosso caminho são os degraus que nos fazem subir mais alto.

Falhamos ao impedi-los de aprender a assumir os próprios erros, a reconhecer as suas falhas e ter a humildade de pedir desculpa, sempre que nos ocupamos em disfarçar as suas asneiras, por mais insignificantes que possam parecer. Às vezes apenas porque sabemos ser também atingidos pelos olhares críticos que lhes são dirigidos.

Iludimo-nos ao pensar que a imposição de regras lhes limita a liberdade: a verdadeira liberdade é a liberdade consciente de quem conhece e sabe respeitar os limites. Ao permitir que vivam sem regras estamos a enganá-los a eles também, criando-lhes a falsa impressão de que tudo podem.

Quais as consequências futuras, como reagirão quando se depararem com as inflexíveis imposições da sociedade?

Fugimos às nossas responsabilidades ao antecipar o seu poder de decisão sem que sejam ainda capazes de distinguir entre o que desejam e o que lhes é mais favorável. Sem que previamente lhes demonstremos por palavras e exemplos quais as melhores opções.

Esquecemo-nos de que a família é a primeira escola de vida. E de que os irmãos são os nossos iguais com os quais damos os primeiros passos na aprendizagem da partilha, da solidariedade, mas também da luta pelos nossos interesses e da defesa própria.

Os irmãos são a nossa melhor escola de relações humanas, são o primeiro exemplo da diversidade, são os nossos melhores companheiros de brincadeiras, os nossos maiores confidentes, e também os nossos mais duros críticos.

Teremos o direito de retirar aos nossos filhos essa mais-valia desculpando a nossa atitude com o argumento de que teremos mais para dar a menos filhos? Mais de quê?

Escusamo-nos a lembrar que é em família e no cumprimento das mais pequenas tarefas que aprendemos o sentido da cooperação e da entreajuda, que compreendemos que temos que ter um papel activo na sociedade, e que, mesmo alguns trabalhos que nos parecem secundários, são parte integrante e essencial para o bom funcionamento geral.

Ignoramos que sacrificamos a sua autonomia e a sua responsabilidade por não permitirmos a sua gradual incursão no mundo nem a experimentação de situações em que estejam completamente sozinhos, por sua conta e risco, mantendo-os sempre sob o nosso olhar protector ou aprisionados dentro das grades da escola.

Não os preparamos para enfrentar o mundo,
não os ensinamos a tomar decisões,
a ponderar os prós e os contras das atitudes que possam tomar nem a fazer opções conscientes.

Admirar-nos-emos talvez quando, na ânsia de se libertarem, correrem irreflectida e desenfreadamente na direcção de tudo o que lhes está vedado.

Fechamos os olhos à importância que terá na sua vida futura a facilidade que possam desde já adquirir em se relacionar com quem pensa e vive de outro modo, ou simplesmente tem um corpo diferente do seu, privando-os da aprendizagem de valores tão fundamentais como o respeito pela diferença e a solidariedade, mas sobretudo da descoberta da individualidade de cada ser humano, longe das sombras que os preconceitos projectam nas relações entre as pessoas.

Cremos em falsos ideais, associando a auto-confiança e a auto-estima dos nossos filhos aos objectos e bens que possam exibir, levando os nossos filhos a convencerem-se que valem pelo que têm mais do que pelo que são.

Deixamo-nos engolir pelo consumismo, ao aceitar e seguir a regra estabelecida de que os sentimentos de inferioridade e a insegurança estão directamente relacionados com o que se possui.

Negamos-lhes a possibilidade de construção de um amor-próprio alicerçado no conhecimento pessoal, na consciência das próprias capacidades não só intelectuais mas sobretudo de influência positiva à sua volta, na certeza de que cada pessoa é um ser único e insubstituível, e em que nada pesa aquilo que se tem, mas o que se é, e em que importa sobretudo o que se faz para, mesmo em pormenores aparentemente insignificantes, mudar o mundo para melhor.

Retiramos-lhes a faculdade de reconhecer o valor do que têm, de saborear as pequenas conquistas, porque tudo conseguem sem o menor esforço, conduzindo-os a uma permanente insatisfação, que poderão
procurar compensar buscando o prazer fácil e imediato no álcool, nas drogas e numa sexualidade irresponsável.

Demitimo-nos do nosso papel de educadores ao passar para a escola as responsabilidades que são nossas e exclusivas.

  • São os pais quem deve acompanhar os filhos na execução dos trabalhos de casa, para melhor compreenderem a vida escolar dos filhos, para poderem prever e entender as suas dificuldades, para aprofundar a relação de proximidade entre as gerações.

  • São os pais quem lhes deve ensinar as mais básicas regras da vivência em sociedade, são o seu primeiro e mais marcante modelo - é connosco, pais, e seguindo o nosso exemplo que se tornam Homens e Mulheres.

  • São os pais quem deve, procurando auxílio externo se disso sentirem necessidade, num clima de intimidade familiar, aconselhar e orientar os filhos para uma sexualidade responsável e indissociada dos valores, não abdicando desta sua missão em favor de um modelo generalista que não poderá respeitar a individualidade e a intimidade de cada um.

Talvez devamos parar para pensar que se as vitórias se conseguem à custa das derrotas de outrem, neste caso os principais derrotados são os nossos filhos.

Negamos a evidência da eficácia do diálogo e da proximidade, como o mais básico meio de prevenção contra os todos os riscos da actualidade. Está nas suas cabecinhas o disco rígido onde com a maior segurança poderemos instalar todo o software de segurança, é aí que devemos colocar a base de dados do conhecimento, dos riscos, dos caminhos, das opções e dos objectivos e onde devemos inserir os valores pelos quais devem orientar a sua vida.

Só com proximidade, cumplicidade e intimidade se constroem os sólidos pilares sobre os quais se erguerão.

Super-amamos os nossos filhos.


Será que os amamos da melhor maneira?




Helena Azeredo, Mãe

Os pais são para os filhos, mas os filhos não são para os pais.



Os filhos são a glória e a alegria dos esposos. Mas a missão dos pais exige uma renúncia porque o amor paterno - e a própria felicidade, que é a sua recompensa - só se realizam pelo dom de si próprio.

Nisto vamos encontrar a regra de todo o amor: mas a oposição entre o amor egoísta que recebe e o amor desinteressado que dá é mais acentuada ainda no amor paternal do que no amor conjugal, porque não há entre os pais e os filhos a mesma reciprocidade que há entre os esposos.

Os pais devem viver para os filhos, mas os filhos não devem viver para os pais. Devem aos pais afecto, reconhecimento, respeito, mas estes deveres não postulam que lhes consagrem as suas vidas, ao passo que os pais, durante todo o tempo em que os filhos necessitam deles, têm o dever de lhes consagrar a vida.

Porque a lei da natureza lança o género humano para a frente. Os pais são o passado; os filhos, o futuro. O papel dos pais é transmitir a vida e desaparecer depois de haverem confiado aos filhos todos os bens que possuem. A transmissão da fortuna não é mais do que o símbolo da transmissão dos bens do corpo, da alma e do coração, que os filhos recebem dos pais, primeiramente por nascimento e, depois, pela educação.

E é lei da natureza que, tendo os pais dado tudo aos seus filhos, lhes não entreguem estes o que receberam, mas por sua vez o transmitam aos seus filhos, e se dediquem a estes, como os seus pais se dedicaram a eles. Os pais são, pois, para os filhos. E os filhos não são para os pais. A natureza é impiedosa: nada há para os pais na missão paterna; é tudo para os filhos. Os pais encontram nela a sua recompensa, mas com a condição de a não procurarem e de nem sequer pensarem nisso. Todo o volver sobre si mesmos da sua parte diminui o afecto e o respeito que os filhos lhes dedicam e, por consequência, as verdadeiras satisfações que os filhos lhes poderão dar. As famílias em que os filhos fazem o impossível por agradar aos pais, por lhes satisfazer os desejos, por lhes testemunhar o seu afecto, são precisamente aquelas em que os filhos têm a consciência de que os pais viveram para eles e só neles pensaram.

Talvez em nenhum outro domínio se verifique com mais rigor a lei da vida moral que afirma não encontrar o homem a felicidade senão com a condição de a não procurar, e de que a preocupação da felicidade mata a felicidade. Porque o filho é um ser humano jovem, necessariamente orientado para o seu próprio desenvolvimento, e os pais têm a função de lhe assegurar esse desenvolvimento, criando as necessárias condições e conduzindo o filho pelo caminho que lhe convém. Digo bem: que lhe convém, não o que lhes convém.

E, logo, quando o filho, tendo tirado aos pais tudo o que podia tirar, chega à idade em que é senhor do seu destino, manda a lei da natureza que deixe os seus pais e vá realizar a sua missão de homem com a companheira que tiver escolhido.

A felicidade dos pais reside em serem as testemunhas da felicidade dos filhos, as testemunhas do seu êxito e em sentir orgulho desse êxito, porque os seus filhos são os seus filhos e a sua felicidade, os seus êxitos são, de algum modo, os dos seus pais.

Já vimos que os pais são ajudados a este desinteresse pelos próprios laços naturais que os unem aos seus filhos.

O amor dos pais é desinteressado por natureza, no sentido de que é natural nos pais considerar a felicidade e a infelicidade dos filhos, os seus sucessos e os seus fracassos, como próprios. Mas em muitos pais de alma mais ou menos vulgar, este desinteresse só se manifesta nas grandes ocasiões. Devotar-se-ão, por exemplo, ou farão grandes sacrifícios monetários para cuidar do filho doente mas, na vida corrente, só pensarão em si próprios e só procurarão no filho a sua satisfação pessoal.

Os pais também devem aprender a amar. Como os esposos. Mas os pais são esposos, esposos primeiramente, pais depois. Do mesmo modo que o amor conjugal se deve purificar, o amor dos pais deve tomar a forma inteiramente desinteressada que lhe convém.




(Jacques Leclercq)
(http://www.aldeia.net/)

domingo, 6 de maio de 2007

Leis da aprendizagem




1 - Motivação

A pedagogia científica considera que a aprendizagem activa, em contraste com a aprendizagem passiva (ser instruído), é psicologicamente mais adequada para conseguir maior rendimento e assimilação.

A aprendizagem depende das leis da motivação, da activação da vontade de retenção, do efeito positivo que traz consigo o conhecimento do êxito e da experiência dos resultados satisfatórios, do exercício ou prática – que é indispensável – e da organização do material apreendido, a fim de que esteja bem integrado no esquema geral de conhecimento do sujeito.

Também há variados factores que influenciam a aprendizagem, mas todos eles têm uma clara projecção para o rendimento, aumentando-o ou diminuindo-o. Além dos factores intelectuais já assinalados, há que considerar factores psicológicos pessoais como a atenção que se considera, muitas vezes, “factor selectivo” com uma função fundamental; e as atitudes de boa disposição que facilitam a aprendizagem.

Outros factores como as motivações e incentivos são determinantes no processo de aprendizagem, porque têm sempre repercussões positivas ou negativas...

As pressões sociais, sob qualquer forma, são factores condicionantes da aprendizagem e alargam-se a toda e qualquer situação educativa. Salientamos, por exemplo: má nutrição, privação de experiências precoces, códigos linguísticos familiares restritos e valores e estratégias educativas inadequadas.

A personalidade do aluno que exerce uma acção catalítica é determinante uma vez que a força impulsora é a vontade inexorável da pessoa de se ultrapassar a si mesma. O dinamismo básico do homem é a sua auto-realização. A experiência tem vindo a demonstrar que determinados métodos modernos de ensino são mais eficazes do que por exemplo, algumas técnicas tradicionais que, mesmo excelentes, já fizeram a sua época...

2 - Influências da globalização e do desenvolvimento tecnológico

Vivemos um profundo e acelerado processo de mudanças e transformações que nos têm desafiado a encontrar novas maneiras de pensar e agir em muitas áreas da actividade humana. A globalização e o desenvolvimento tecnológico fazem-nos cidadãos do mundo, alteram valores e relações sociais, tendentes a transformar verdades absolutas em relativas e trazem grande complexidade e incertezas...

A velocidade e o carácter permanente destas mudanças, e a quantidade de informações disponíveis demandam do homem, cada vez mais, uma nova postura e o desenvolvimento de habilidades para conviver e compreender a sociedade, a chamada sociedade do conhecimento.

A habilidade mais importante na determinação do padrão de vida de uma pessoa, já se tornou a capacidade de aprender novas destrezas, de assimilar novos conceitos, de avaliar novas situações e de lidar com o inesperado.

Deste modo, com a valorização do conhecimento, da criatividade e a exigência de novas habilidades e competências, torna-se URGENTE continuar a repensar a educação, caracterizada como processo contínuo e permanente.

Educar, para esta sociedade, significa

  • dominar e transcender os recursos tecnológicos,
  • desenvolver a capacidade de questionar,
  • de analisar criticamente e tomar decisões,
  • desenvolver competências para enfrentar situações inesperadas e
  • desenvolver valores éticos e morais permitindo ao cidadão harmonizar os conteúdos aprendidos na escola com a cultura de um mundo globalizado...

Estas mudanças implicam novas fórmulas de conceber a educação, pois o sentido da escola está na transformação da vida e da sociedade.

Assim, de uma educação que enfatizou durante anos a transmissão de conteúdos, a instrução, o “empurrar” informações para os alunos, devemos mudar para

uma educação que crie ambientes de ensino/aprendizagem, em que o educando é agente activo do seu processo de aprender, “puxa” informações, processa e constrói o seu conhecimento por meio de actividades significativas e contextualizadas.


Esta mudança aponta para um novo paradigma em educação, que enfatiza a aprendizagem como processo contínuo de elaboração pessoal do conhecimento.

Maria Helena Henriques Marques
Professora do Ensino Secundário

sexta-feira, 4 de maio de 2007

A ciência não exclui Deus



Numa entrevista de Gabriela Carelli para a revista brasileira “Veja” o médico Francis Collins fala de Ciência e Fé. O médico diz que se converteu à Fé depois de se ter considerado ateu durante toda a sua juventude.

Assim conta: "Eu tinha 27 anos, mas não passava de um jovem insolente. Negava a possibilidade de que houvesse algo capaz de explicar as questões para as quais nunca encontramos respostas, mas que movem o mundo e fazem com que as pessoas superem os obstáculos". São "questões filosóficas que transcendem a ciência e fazem parte da existência humana".

Por isso, acrescenta Collins, "os cientistas que se dizem ateus têm uma visão empobrecida acerca das questões que todos os seres humanos nos apresentamos todos os dias". E adverte que a ciência não se opõe à fé: "Necessitamos da ciência para compreender o mundo e usar esse conhecimento para melhorar as condições humanas. Mas a ciência deve permanecer em silêncio acerca dos assuntos espirituais".

"A sociedade necessita tanto da religião como da ciência. Não são incompatíveis, mas sim complementares. A ciência investiga o mundo natural. Deus pertence a outra esfera. Deus está fora do mundo natural. Usar as ferramentas da ciência para discutir a religião é uma atitude imprópria e equivocada".

A entrevistadora objecta que, em nome de Deus, se têm cometido barbaridades ao longo da história mas para Collins, "o problema é que a água pura da fé religiosa circula pelas veias defeituosas e oxidadas dos seres humanos e, por vezes, enturva-se. Isso não significa que os princípios estejam equivocados, ainda que haja pessoas que usam esses princípios de forma inadequada para justificar as suas acções. A religião é um veículo para a fé, que é imprescindível para a humanidade".

Collins não é partidário da teoria do "desenho inteligente" que, segundo ele, cai no erro de preencher as lacunas do conhecimento científico com a intervenção divina, ao argumentar que a evolução não explica estruturas tão complicadas como as células.
Para ele, "Todos os sistemas complexos que cita o desenho inteligente (o mais citado é o flagelo bacteriano, um pequeno motor externo que permite à bactéria mover-se em meio líquido) são um conjunto de trinta proteínas. Podemos juntar artificialmente essas trinta proteínas, mas não acontecerá nada. A razão é que esses mecanismos se formaram gradualmente mediante a adição de outros componentes. A maquinaria molecular desenvolveu-se no decorrer de largos períodos de tempo, mediante o processo que vislumbrou Darwin: a evolução”.

Deus actua. O que foi dito atrás não supõe a negação de que Deus actue no mundo, inclusivamente de modo sobrenatural. Não é contraditório para um cientista acreditar em milagres, responde Collins a outra pergunta: "A questão dos milagres está relacionada com a forma como acreditamos em Deus. Se uma pessoa acredita e reconhece que Ele estabeleceu as leis da natureza e está, ao menos em parte, fora da natureza criada, então é totalmente aceitável que Deus seja capaz de intervir no mundo natural".

Por outro lado, Collins não encontra incompatibilidade entre Evolução e Criação: "Se no início dos tempos, Deus decidiu usar o mecanismo da evolução para criar a diversidade de vida que existe no planeta, para fazer criaturas à sua imagem que tenham livre arbítrio, alma e a capacidade de discernir entre o bem e o mal, quem somos nós para dizer que Ele não deveria ter criado o mundo dessa forma?"

O que Collins não compartilha é a ideia de que a evolução explica tudo, inclusive o altruísmo e outras propriedades da livre conduta humana: "Esses argumentos podem parecer plausíveis, mas não há provas de que o altruísmo seja uma característica do ser humano que lhe permita sobreviver e progredir, como sugerem os evolucionistas que querem justificar tudo por meio da ciência".

No estudo das bases genéticas da conduta "há muitas teorias interessantes, mas não chegam a explicar os nobres actos altruístas que admiramos. Por que motivo acontecem este tipo de coisas? Se caminhando à beira de um rio, vejo uma pessoa que se vai afogar e decido ajudá-la pondo em risco a minha vida, de onde vem este impulso? Nada na teoria da evolução pode explicar a noção de bom e mau, a moral, que parece exclusiva da espécie humana".




1) Médico geneticista, autor do livro "The Language of God"



Aceprensa, 14-02-2007

Tradução de Maria Helena H. Marques
Professora do Ensino Secundário


sexta-feira, 23 de março de 2007

COMO SOU


1 - Trata-me con pureza!


2 - Não me catalogues, não sou nenhum objecto.


3 - Não me ponhas etiquetas, não sou nenhuma mercadoria.


4 - Não me julgues, não sou teu réu.


5 - Não me acuses, não és o meu fiscal.


6 - Não me condenes, não és o meu juiz.


7 - No me ponhas marcas, não sou espelho nem quadro.


8 - Não me definas, sou um mistério.


9 - Não me minimizes, sou mais complexo do que pensas.


10 - Não me divulgues, não sou nenhum produto ou coisa.


11 - Não me vulgarizes, sou alguém muito especial.


12 - Não apontes para mim, não sou nenhum alvo.


13 - Não me idolatres, não sou nenhum ídolo.


14 - Não me calunies, tenho o direito à verdade dos factos.


15 - Não me difames, tenho o direito de ser quem sou.


16 - Não me esquematizes, sou mais livre do que tu imaginas.


17 - Não acredites demasiado en mim, sou falível.


18 - Não duvides sempre de mim, sou mais verdade que erros.


19 - Recorda sempre que:

Sou gente como tu.

Sou humano como tu.

Sou limitado como tu.

Sou filho de Deus como tu.


20 - Trata-me como gente e serás para mim o que não conseguiste ver em mim:

Um irmão de verdade!


Violetta Castañeda (E.U.A.)

sexta-feira, 9 de março de 2007

Queridos Mãe e Pai




Não sei muito bem por que comecei a escrever isto.


E também não sei por que o faço em forma de carta, como se fosse mesmo possível estar a dizer-vos estas coisas... como se fosse possível que as escutassem. Deve ser porque há alturas na vida em que fazemos um balanço, ou em que sentimos necessidade de descobrir sentidos, de pensar em causas e consequências. E há pensamentos que só ganham a sua dimensão dentro de nós quando os dizemos a alguém, ainda que seja só assim como o estou a fazer.


É claro que a mãe e o pai são as pessoas a quem mais devo e por quem tenho uma grande gratidão! Aliás, como poderia ser de outra forma?


É claro que o que vou dizer não é uma crítica... até porque não sei se eu teria sido capaz de fazer melhor caso estivesse no vosso lugar. O que fizeram por mim tem muitíssimo mais valor (está noutro plano) do que aquilo que não fizeram.


Esta carta é assim como pensar em voz alta! Por isso, sei que não me levarão a mal se pudessem ler estas palavras.


Procuraram, desde criança, tornar-me a vida fácil. O vosso amor levou-vos a afastarem de mim os obstáculos e os esforços. Mas também afastaram alguma possibilidade de eu conseguir adquirir alguma experiência, também a possibilidade de me tornar uma pessoa corajosa. Foi muito mais tarde que aprendi a perder... que soube que a vida não podia ser exactamente como desejava... que compreendi que devia adaptar-me, ceder, crescer dentro de mim para alcançar objectivos.


Como me custou então!... Tive de aprender tudo isto, não nas coisas pequenas da infância, mas nas grandes; não naquilo que teria remédio fácil, mas no que não tinha remédio; não dentro das paredes acolhedoras do lar, mas na grande casa, cheia de vento, da vida.


E ainda não aprendi totalmente. Ainda sou muitas vezes a figura da desilusão. Há muitos dias em que viver me enraivece. Deram-me tantas coisas!... Ainda agora me vêm por vezes à lembrança as roupas bonitas que vesti, os brinquedos que me deliciaram, as guloseimas...e tantas, tantas coisas que me deram!...


Por que não me deram o vosso tempo? Como eu seria agora feliz se tivéssemos vivido na rua, numa barraca, à chuva talvez, mas abraçados, cantando, apoiando-nos uns nos outros!...


Pai, se tu soubesses quantas coisas te quis contar e não pude!...
Para que queria eu uma televisão no quarto?... E jogos electrónicos?... Não passaram de parênteses na minha vida: tempo que perdi, tempo que me foi roubado, tempo em que estive só, completamente só!


Eu agora sei bem que os melhores brinquedos são os irmãos. Brinquedos vivos, que dão e recebem, que nos fazem crescer e crescem também pelas nossas mãos. Que se transformam depois em grandes amigos para toda a vida, em companhia sempre presente de uma maneira ou de outra, em refúgio e em estímulo. Em algo que fica quando se perde tudo aquilo a que nos conduziu a nossa loucura, quando se perde o que o tempo nos vai levando.


E se soubessem como me tem custado relacionar-me com outras pessoas: colegas, companheiros, amigos... Se eu tivesse tido irmãos, teria aprendido desde muito cedo a limar essas arestas normais da convivência. Saberia desde muito cedo o que é um rapaz, uma rapariga, uma mulher, um homem.Há coisas tão difíceis, que nenhum livro ensina!...


Por que não me deram irmãos?...


Há dias li num jornal uma senhora dizer que só tinha tido um filho porque ter outro era muito caro. Não acredito em que, no nosso caso, tenha sido por uma razão como esta!... Lembro-me muito bem de me terem ensinado que devemos ser generosos.


Mãe, tu fizeste contas? Fizeste contas, pai? Como quando compraram o automóvel?


Eu também não teria existido se naquela altura tivéssem alguns uns euros a menos no banco?


É possível que eu seja resultado das vossas contas e não do vosso amor?


É claro que não acredito!...


Sempre me ensinaram que o amor resolve todos os problemas. Hoje fico por aqui. Em breve vos escreverei de novo.

Autor: Paulo Geraldo
(Adaptação)

Vai ...



Para sonhar o que poucos ousaram sonhar.
Para realizar aquilo que já te disseram que não podia ser feito.
Para alcançar a estrela inalcançável.
Essa será a tua tarefa: alcançar essa estrela. Sem quereres saber quão longe ela se encontra;nem de quanta esperança necessitarás;nem se poderás ser maior do que o teu medo.
Apenas nisso vale a pena gastares a tua vida.
Para carregar sobre os ombros o peso do mundo.
Para lutar pelo bem sem descanso e sem cansaço.
Para enxugar todas as lágrimas ou para lhes dar um sentido luminoso.
Levarás a tua juventude a lugares onde se pode morrer, porque precisam lá de ti. Pisarás terrenos que muitos valentes não se atreveriam a pisar.
Partirás para longe, talvez sem saíres do mesmo lugar.
Para amar com pureza e castidade.
Para devolver à palavra "amigo" o seu sabor a vento e rocha.
Para ter muitos filhos nascidos também do teu corpo e - ou - muitos mais nascidos apenas do teu coração.
Para dar de novo todo o valor às palavras dos homens.
Para descobrir os caminhos que há no ventre da noite.
Para vencer o medo. Não medirás as tuas forças.
O anjo do bem te levará consigo, sem permitir que os teus pés se magoem nas pedras.
Ele, que vigia o sono das crianças e coloca nos seus olhos uma luz pura que apetece beijar, é também guerreiro forte.
Verás a tua mão tocar rochedos grandes e fazer brotar deles água verdadeira.
Olharás para tudo, com espanto.
Saberás que, sendo tu nada, és capaz de uma flor no esterco e de um archote no escuro.
Para sofrer aquilo que não sabias ser capaz de sofrer.
Para viver daquilo que mata. Para saber as cores que existem por dentro do silêncio.
Continuarás quando os teus braços estiverem fatigados.
Olharás para as tuas cicatrizes sem tristeza. Tu saberás que um homem pode seguir em frente apesar de tudo o que dói, e que só assim é homem.
Para gritar, mesmo calado, os verdadeiros nomes de tudo.
Para tratar como lixo as bugigangas que outros acariciam.
Para mostrar que se pode viver de luar quando se vai por um caminho que é, principalmente, de cor e espuma.
Levantarás do chão cada pedra das ruínas em que transformaram tudo isto.
Uma força que não é tua nos teus braços. Beijá-las-ás e voltarás a pô-las nos seus lugares.
Para ir mais além.
Para passar cantando perto daqueles que viveram poucos anos e já envelheceram.
Para puxar por um braço, com carinho, esses que passam a tarde sentados em frente de uma cerveja.
Dirás até ao último momento: "ainda não é suficiente".
Disposto a ir às portas do abismo salvar uma flor que resvalava.
Disposto a dar tudo pelo que parece ser nada.
Disposto a ter contigo dores que são semente de alegrias talvez longe.
Para tocar o intocável,
Para haver em ti um sorriso que a morte não te possa arrancar,
Para encontrar a luz de cuja existência sempre suspeitaste,
Para alcançar a estrela inalcançável.
Autor: Paulo Geraldo
(Adaptação)