terça-feira, 3 de abril de 2012

A Redenção no centro do Anúncio Cristão

Guardar o Depósito da Fé, é a missão que Deus comunicou à sua Igreja e que ela cumpre em todos os tempos. O Concílio Vaticano II, aberto pelo Papa João XXIII, tinha como intenção e finalidade pôr em evidência a missão apostólica e pastoral da Igreja “e, fazendo resplandecer a verdade do Evangelho, levar todos os homens a procurar e acolher o amor de Cristo, que
excede toda a ciência” (cf. Ef 3,19).
Por outro lado, o Catecismo da Igreja Católica, vem apresentando com fidelidade e de modo orgânico, o ensinamento da Sagrada Escritura, da Tradição e do Magistério da Igreja. Assim, o Catecismo inclui “coisas novas e velhas (cf. Mt 13,52) porque a fé é imutável e fonte de luzes sempre novas”, respondendo assim às interrogações da nossa época…
Neste momento em que nos preparamos para celebrar o Mistério Pascal da Redenção, é útil rever para refletir e aprofundar na riqueza incomensurável que encerra.
O Homem criado à imagem e semelhança de Deus era, a partir daí, templo vivo de Deus. Com a “queda” – o pecado original – esse templo foi destruído, mas a Sabedoria de Deus, já havia traçado um plano para a reconstrução – O Mistério daRedenção…
Trata-se de um dos Mistérios mais sublimes e importantes da Fé Cristã! Diz respeito a todos e a cada um de nós, pois através dele, as Portas do Céu, fechadas pelo pecado, foram reabertas para
toda a Humanidade. Jesus, abrindo os seus braços sobre a Cruz e nela morrendo, abriu-no-las novamente e para sempre …
Diz, a propósito, o Catecismo da Igreja Católica: “Nisto consiste a redenção de Cristo: `Ele veio dar a sua vida em resgate por muitos `(Mt 20,28), isto é, `Amou os seus até ao fim` (Jo 13, 1). Trata-se de um mistério de amor e salvação.
Amor que impeliu Jesus até ao sacrifício de si mesmo para a plena glorificação de Deus e o resgate dos homens, reconciliando-os com Deus.
Escreve o Papa: “No Gólgota, Cristo fez da sua própria vida uma oferta de valor eterno, uma oferta `redentora`, que reabriu para sempre a estrada da comunhão com Deus, interrompida pelo pecado” (João Paulo II, 2000, disponível em http://www.vatican.va/).
Com esta breve reflexão sobre o Mistério Redentor de Cristo, fica claro que por meio do Seu Filho, Deus renova a sua aliança de amor outrora realizada na criação. Assim, o Deus Criador torna-se também o Deus Redentor, em Jesus Cristo e o homem reencontra a grandeza e a dignidade da humanidade criada para a comunhão com Deus.
Deste modo, a Redenção Humana realizada por Jesus Cristo, é uma iniciativa da bondade e da misericórdia de Deus. Ele quis propor a Salvação ao homem.
Na Constituição Dogmática Dei Verbum, encontramos claramente esta iniciativa divina: “Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-Se a Si mesmo e tornar conhecido o mistério da sua vontade, pelo qual os homens, por intermédio de Cristo, Verbo feito carne, e no
Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina”, (DV2). Assim, “o Mistério Pascal da Cruz e da Ressurreição de Cristo está no centro da Boa Nova que os apóstolos e todos os cristãos, na esteira deles, devem anunciar ao mundo. O projecto salvador de Deus realizou-se “uma vez por todas” pela morte redentora de seu Filho, Jesus Cristo” (Cat. Ig. Cat.& 571).
O preço pelo nosso resgate foi a sua própria vida, mostrando-nos ao mesmo tempo, a gravidade do pecado, e quanto vale a nossa salvação eterna e os meios para alcançá-la… São Paulo diz-nos: “fostes comprados por alto preço…”
A Quaresma, prestes a terminar, é um bom momento para deter-nos a considerar que a Redenção continua a fazer-se no dia a dia, “Cada vez que se celebra no altar a Santa Missa que torna presente o Sacrifício da Cruz, pelo qual se imola Cristo nossa Páscoa, realiza-se a obra da nossa  redenção”. (Conc. Vat. II, Lumen gentium).
Por tudo isto, cada Missa possui um valor infinito; os frutos em cada pessoa dependem das disposições pessoais.
Realiza-se também a Redenção, de modo diferente ao que foi dito sobre a Missa, em cada uma das nossas conversões interiores, quando fazemos uma boa Confissão, quando recebemos bem preparados e com piedade os Sacramentos, que são como “canais da graça”…
Em síntese: A Redenção realizou-se uma só vez, mediante a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, e actualiza-se agora em cada homem, de um modo particularmente intenso, quando participa intimamente do Sacrifício da Missa.

Maria Helena Marques
Prof Ensino Secundário

quarta-feira, 21 de março de 2012

Vocação e Dignidade da mulher - II


A dignidade da mulher e a sua vocação, tem sido objecto constante de reflexão humana e cristã, e tem assumido nos últimos anos, um relevo muito especial. Atestam-no, entre outras coisas, as múltiplas intervenções do Magistério da Igreja, reflectidas em inúmeros documentos do Concílio Vaticano II, de antes e depois. Para além das intervenções dos Papas Pio XII e João XXIII, salientamos a de Paulo VI que, intitulando-a “sinal dos tempos”, declara, entre outras coisas: “No Cristianismo, de facto, mais do que em qualquer outra religião, a mulher tem, desde as origens, um estatuto especial de dignidade, do qual o Novo Testamento nos atesta importantes e relevantes aspectos, ainda pouco conhecidos”.
Celebrámos em 15 de Agosto de 2008, vinte anos da Carta Apostólica Mulieris dignitatem
"A dignidade da Mulher" do Papa João Paulo II, a que não podemos deixar de fazer referência, tanto mais que se trata de um primeiro documento pontifício totalmente dedicado à Mulher.
No ponto 1. citando a Mensagem final do Concílio Vaticano II, salienta o Papa: “Mas a hora vem, a hora chegou, em que a vocação da mulher se realiza em plenitude, a hora em que a mulher adquire no mundo uma influência, um alcance, um poder jamais alcançados até agora. Por isso, no momento em que a humanidade conhece uma mudança tão profunda, as mulheres iluminadas e vivificadas com o espírito do Evangelho, são elemento decisivo para que a humanidade não descaia, mas antes avance por caminho certo e seguro”...
Promover o autêntico desenvolvimento
Em 20 de Abril de 2007, a Santa Sé pronunciando-se nas Nações Unidas acerca das prioridades actuais para promover o autêntico desenvolvimento da humanidade, afirma estar certa de que uma dessas prioridades passa pela verdadeira promoção da mulher, através de estratégias
que esta instituição se propõe realizar de 2 008 a 2 013.
O observador permanente da Santa Sé na UNESCO, apresentou como prioridade para essa instituição, “ a promoção real da dignidade das mulheres e da sua participação responsável na vida social, em todos os níveis “.
O representante da Santa Sé recordou, a propósito, que Bento XVI, na sua mensagem para o dia mundial da Paz, 2007, mostrou a influência que as desigualdades entre homens e mulheres, têm nos conflitos em todo o mundo: “Na origem de frequentes tensões que ameaçam a paz, encontram-se muitas desigualdades entre homem e mulher no exercício dos direitos humanos
fundamentais”.
O representante do Papa acrescentou que a insuficiente consideração da condição feminina, provoca também factores de instabilidade na ordem social: “Não se pode cair na ilusão de que a paz está assegurada, enquanto não se superem também estas formas de discriminação que afectam a dignidade pessoal, inscrita pelo Criador em cada ser humano”. Referiu ainda que a Santa Sé reconhece o papel activo da mulher no desenvolvimento social, o seu papel incomparável na formação humana da juventude e no sistema macro - económico; o seu apego aos valores humanos e morais que transmite também às novas gerações, a protecção da vida, a sua atenção pela paz e a solidariedade fraterna, o cuidado pelas pessoas anciãs e enfermas, o cuidado da sua família e filhos, o seu sentido de interioridade.
Graças às mulheres cuja actividade, com frequência humilde e escondida, deve ser apoiada, a família poderá ser promovida como célula fundamental da sociedade, os jovens aprenderão a
integrar-se melhor nos tecidos sociais, a paz será procurada mais intensamente, o diálogo e as relações humanas converter-se-ão em factores de fraternidade e solidariedade.
Assim, – temos essa esperança – toda a sociedade beneficiará da vocação, da acção e do génio feminino, fomentando e promovendo na Vida, os princípios e valores cristãos!

Vocação e Dignidade da Mulher - I

Revendo e analisando, comparativamente, momentos e acontecimentos do percurso da História, apercebemo-nos de que a humanidade tem registado avanços e retrocessos não poucas vezes, dramáticos e surpreendentes...
Entre os povos antigos, a personalidade humana aparece extremamente diminuída e mutilada. Tem-se uma visão deformada do ser humano em situação de escravo, do designado estrangeiro, das relações pais - filhos e, particularmente, no concernente ao género feminino, em que vemos essas categorias de pessoas reduzidas, muitas vezes, à condição de objectos, meras coisas de que se pode dispor a bel - prazer, de qualquer modo...
Recordamos, por exemplo, como na Grécia antiga a mulher era sempre considerada inferior ao homem. A mulher ateniense mal aparecia em público e tinha pouca importância na vida social.. Na família, recebe instrução rudimentar e como mãe de família, manifesta-se completamente sujeita ao marido, sendo por ele considerada apenas, como a primeira entre as escravas e
podendo ser, sem formalidade alguma, repudiada...
A poligamia e o divórcio reduzem a mulher à mais triste situação moral e humana na antiguidade pagã.
Com a queda do Império Romano e a adopção do Cristianismo como religião oficial, cabe à Igreja regenerar a Família, a Mulher, elevando o casamento à condição de sacramento integrando as características da unidade, fecundidade e indissolubilidade e dando, finalmente à Mulher, o lugar que, na Família, por direito divino lhe corresponde.
A progressiva estabilidade no casamento, conquista que remonta às ideias cristãs da Idade Média, permitiu que, pela primeira vez na história, a mulher fosse vista legalmente não mais como inferior ao marido, mas como um membro essencial para a família. A instauração do casamento como instituição natural, trouxe benefício não só para a mulher, mas para os filhos que ganharam a protecção de um lar estável com as consequências positivas que dele derivam.
Mas os primeiros passos da humanidade rumo à dignificação da mulher foram registados, com maior nitidez, a partir do século IX, em grande parte, à medida que a sociedade medieval adoptava a prática do casamento monogâmico, que conferia à mulher um novo estatuto no
plano das relações sociais: ela passou a ser o módulo essencial para a constituição da família, garantindo-lhe unidade e solidez. De acordo com alguns estudos, as causas da participação política e do crescente prestígio social conquistado pela mulher no decorrer da Idade Média, a partir do século XII, são atribuídas sobretudo ao casamento monogâmico, considerando-o um dos factores decisivos para a intervenção feminina na vida pública e social. Nesse aspecto, a mulher tornou-se, assim, a garantia de funcionamento dos sistemas político ou social, assim como a condição básica da sua estabilidade.