quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A Ciência não exclui Deus



Francis Collins, médico e genetista, é autor do livro “The Language of God”, numa entrevista de Gabriela Carelli para a revista brasileira “Veja” fala de ciência e fé.



Francis Collins converteu-se à Fé depois de ter-se considerado ateu durante a sua juventude. “Eu tinha 27 anos, mas não passava de um jovem insolente. Negava a possibilidade de que houvesse algo capaz de explicar as questões para as quais nunca encontramos respostas, mas que movem o mundo e fazem com que as pessoas superem os obstáculos”. São “questões filosóficas que transcendem a ciência e fazem parte da existência humana”. Por isso, acrescenta Collins, “os cientistas que se dizem ateus têm uma visão empobrecida acerca das questões que todos os seres humanos nos apresentamos todos os dias”.




Collins adverte que é perigoso opor a ciência à fé. “Necessitamos da ciência para compreender o mundo e usar esse conhecimento para melhorar as condições humanas. Mas a ciência deve permanecer em silêncio acerca dos assuntos espirituais”.


“A sociedade necessita tanto da religião como da ciência. Não são incompatíveis, mas sim complementares. A ciência investiga o mundo natural. Deus pertence a outra esfera. Deus está fora do mundo natural. Usar as ferramentas da ciência para discutir a religião é uma atitude imprópria e equivocada”.


A entrevistadora objecta que, em nome de Deus, se têm cometido barbaridades ao longo da história. Para Collins, “o problema é que a água pura da fé religiosa circula pelas veias defeituosas e oxidadas dos seres humanos e, por vezes, enturva-se. Isso não significa que os princípios estejam equivocados, ainda que haja pessoas que usam esses princípios de forma inadequada para justificar as suas acções. A religião é um veículo para a fé, que é, sim, imprescindível para a humanidade”.


Collins não é partidário da teoria do “desenho inteligente” que, segundo ele, cai no erro de preencher as lacunas do conhecimento científico com a intervenção divina, ao argumentar que a evolução não explica estruturas tão complicadas como as células. “Todos os sistemas complexos que cita o desenho inteligente (o mais citado é o flagelo bacteriano, um pequeno motor externo que permite à bactéria mover-se em meio líquido) são um conjunto de trinta proteínas. Podemos juntar artificialmente essas trinta proteínas, mas não acontecerá nada. A razão é que esses mecanismos se formaram gradualmente mediante a adição de outros componentes. A maquinaria molecular desenvolveu-se no decorrer de largos períodos de tempo, mediante o processo que vislumbrou Darwin: a evolução”.




Deus actua.




O que foi dito atrás não supõe a negação de que Deus actue no mundo, inclusivamente de modo sobrenatural. Não é contraditório para um cientista acreditar em milagres, contesta Collins a outra pergunta. “A questão dos milagres está relacionada com a forma como acreditamos em Deus. Se uma pessoa acredita e reconhece que Ele estabeleceu as leis da natureza e está, ao menos em parte, fora da natureza criada, então é totalmente aceitável que Deus seja capaz de intervir no mundo natural.


Por outro lado, Collins não encontra incompatibilidade entre a evolução e a criação. “Se no início dos tempos Deus decidiu usar o mecanismo da evolução para criar a diversidade de vida que existe no planeta, para fazer criaturas à sua imagem que tenham livre arbítrio, alma e a capacidade de discernir entre o bem e o mal, quem somos nós para dizer que Ele não deveria ter criado o mundo dessa forma?”. O que Collins não compartilha é a ideia de que a evolução explica tudo, inclusive o altruísmo e outras propriedades da livre conduta humana. “Esses argumentos podem parecer plausíveis, mas não há provas de que o altruísmo seja uma característica do ser humano que lhe permita sobreviver e progredir, como sugerem os evolucionistas que querem justificar tudo por meio da ciência”.


No estudo das bases genéticas da conduta “há muitas teorias interessantes, mas não chegam a explicar os nobres actos altruístas que admiramos. Por que motivo acontecem este tipo de coisas? Se caminhando à beira de um rio, vejo uma pessoa que se vai afogar e decido ajudá-la, ponho em risco a minha vida, mas de onde vem este impulso? Nada na teoria da evolução pode explicar a noção de bom e mau, a moral, que parece exclusiva da espécie humana”.

In Aceprensa, 14-02-2007


Tradução de Maria Helena H. Marques
Professora do Ensino Secundário


Trata-se de eutanásia ou não?



A retirada do respirador de Inmaculada Echevarria e a sedação terminal para aliviar as dores da sua agonia, com o resultado final da sua morte, provocou diversas reacções e interpretações.
Há quem fale de...
... eutanásia,
... eutanásia passiva,
... suicídio assistido ou
... limitação do esforço terapêutico.

O “ABC” é o jornal diárioque recolhe o maior número de opiniões acerca disso.

César Nombela, Catedrático de Microbiologia, considera que “é impossível subtrair-se à ideia de que o respirador supõe a aplicação de um tratamento, tão estabelecido e comum como poderia ser a alimentação mediante sonda gástrica ou por via parentérica, ao enfermo incapaz de alimentar-se de forma normal. É muito difícil, portanto, evitar a conclusão de que o que se praticou é uma eutanásia, até mesmo voltando a insistir naquilo que defendem os que pensam que simplesmente se omitiu uma terapia desproporcionada”.

Alfonso López de la Osa, professor de Direito Administrativo, defende a mesma opinião ao dizer que “é uma constatação que a execução do acto, a desconexão, é um acto directo que tem como fim imediato acabar com a vida de uma pessoa consciente”.

Direito à retirada de um tratamento

José Miguel Serrano, professor de Filosofia do Direito, declara que depois do consentimento para receber tratamento através do respirador, Inmaculada “mantinha o seu direito de opor-se a tal tratamento em qualquer momento”, a decisão do Conselho Consultivo de Andaluzia seria “correcta”, embora reconhecendo que “estamos nos limites”.

Xavier Gómez-Batiste, presidente da Sociedade Espanhola de Cuidados Paliativos, afirma com firmeza que “não é eutanásia” porque “se trata de uma decisão individual legítima de limitação do esforço terapêutico”, embora reconhecendo que “este caso tem características que o tornam mais chocante, pelo facto de que a relação entre o abandono de tratamento é imediata (e mediática), comparada com um doente que decide abandonar a hemodiálise ou não tratar-se de uma obstrução intestinal”. Miguel Bajo, catedrático de Direito Penal, salienta que esta morte “não é punível porque existe um direito a rechaçar o tratamento conforme o artigo 2.4 da nova Lei de Autonomia do Paciente”. De modo que “tal como um paciente hospitalizado pode recusar em qualquer momento a ingestão do medicamento mediante uma decisão racional, quem mantém os seus constantes vitais mediante aparatos técnicos pode igualmente opor-se à conexão”.

Enrique Molina, professor de Teologia Moral da Universidade de Navarra, afirma que “retirar a um paciente em estado terminal os meios terapêuticos que o mantêm com vida, não pode ser considerado eutanásia: não se causa nem induz directa ou indirectamente a sua morte. A dificuldade está em avaliar se os meios que permitem a conservação da sua vida são proporcionados ou não ao fim que se pretende. A respiração assistida é um meio que pode ter mais de desproporcionado que de proporcionado”, ainda que “à hora da verdade, somente quem conhece muito bem a situação médica do enfermo e a sua evolução passada e previsível, está em condições de valorizar o meio terapêutico, e, portanto, se a actuação médica que o retira, contando sempre com o paciente, é ou não eutanásia”.

Manuel Gómez Sancho, director da Unidade de Cuidados Paliativos do Hospital Doctor Negrín, nega categoricamente a possibilidade de considerá-lo eutanásia, porque “era uma enferma e como tal tinha direito a recusar um tratamento com o que não estava de acordo. Noutro momento em que o poderia ter feito não o fez, mas talvez tenha sido este o momento adequado para fazê-lo. Ninguém pode ser obrigado a submeter-se a receber um tratamento, salvo algumas excepções e nenhuma dessas é este caso”.

Dolores Espejo, presidente da Fundação Bioética, defende no “El País” que “neste caso não se trata de um tratamento médico mas sim de uma medida de suporte vital. É evidente que a eliminação de uma vida é um modo desproporcionado para tratar a dor, qualquer outra doença, ou uma deficiência. Assim como o sofrimento de uma pessoa não justifica a sua eliminação”.


Maria Dolores Vila-Coro, titular da cátedra de bioética da Unesco, discorda: “Não é eutanásia libertar a pessoa do aparato que a mantém artificialmente, se o deseja, para que a natureza siga o seu curso normal e actue por si mesma, quando o processo de morte já é irreversível. Ao desconectar a Inmaculada não se abre nenhuma porta à eutanásia pois tudo depende do uso que se faça e do alcance que se lhe outorgue”.

Outras opiniões


Numa nota de imprensa, a Federação de Associações Provida manifestou “o seu profundo desgosto e preocupação pela morte de Inmaculada Echevarria pois reconhece tratar-se de um claro caso de eutanásia passiva, por omissão de um meio proporcionado e necessário”.

Por outro lado, a plataforma Hay Alternativas, através do seu porta-voz, a Dra. Gádor Joya, afirma que “temos de evitar cair na armadilha que nos querem preparar os partidários da morte, tentando aproveitar este caso para trazer a debate o tema da eutanásia, uma vez que o caso de Inmaculada poderia situar-se dentro de um quadro de limitação do esforço terapêutico”.

In Aceprensa, 16-03-2007



Tradução de Maria Helena H. Marques
Professora do Ensino Secundária

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Tranquilidade na ordem







A estrutura da personalidade compreende, entre outros elementos psicológicos, um conjunto de virtudes que tornam o ser humano mais perfeito, íntegro, humanitário. Uma virtude representa sempre mais rectidão, probidade, excelência moral. As pessoas podem ser avaliadas pela riqueza das suas virtudes.




A virtude da ordem, por exemplo, entronca na disciplina, na organização, na aceitação de preceitos e normas. O próprio Universo é obediente a uma ordem estabelecida, implacável, caso contrário não poderia existir. Para assimilar, manter e fazer crescer esta virtude, o indivíduo precisa de corrigir, moldar e aperfeiçoar o seu carácter. Para isso, não poderá prescindir do concurso de outras virtudes, como paciência, tolerância e perseverança. Terá também que afastar hábitos nocivos, como rebeldia e inconformidade, porque na ausência da disciplina, a vida torna-se impossível.



Possuir esta virtude é comportar-se de acordo com algumas normas lógicas, necessárias para o êxito de algum objectivo desejado e previsto, na organização das coisas, na distribuição do tempo e na realização das actividades, com iniciativa própria e sem que seja necessário recordá-lo.




A ordem não é apenas o que cada um de nós pensa num primeiro momento, como a ordem referente à nossa mesa de trabalho com mais ou menos papéis; ao armário ou aos livros amontoados... Esse aspecto utilitário da ordem não é e nem deve ser um fim em si mesmo, mas a consequência de outra ordem fundamental, interior, que se traduz e se projecta no que se faz.


Sem ir mais longe, podemos afirmar que, uma ordem que se limitasse à mera organização de coisas e materiais, bem como de ocupações pessoais, vendo nela uma lei suprema, a ponto de converter-se em obsessão ou mania, como um ídolo ao qual se sacrificassem valores mais importantes, seria na realidade uma grave desordem. Por isso, é importante conhecer e viver os critérios da ordem que hão - de regular a vida e as coisas da vida. Não basta obedecer às leis do menor esforço ou do gosto pessoal. Ou ordenar as actividades a um nível segundo critérios de generosidade ou de egoísmo; ou conforme o que mais agrada aos sentidos, ou que se coaduna com critérios morais...


A ordem, digna deste nome, tem de partir e apontar para um objectivo muito alto: o de conseguir que todos os nossos actos se ordenem para uma vida virtuosa, que se proponha traduzir nesses actos a ordem geral querida por Deus para nós e para as coisas que dependem de nós, do melhor modo que consigamos apreendê-la. Assim, a ordem não será apenas uma virtude, mas a resultante de um conjunto de virtudes que reflectirão a vontade expressa de nos ajustarmos à ordem universal estabelecida pelo Criador para todo o Universo, e à ordem que Ele estabeleceu para o nosso caso.



Nada existe no Universo sem finalidade, quer se trate de seres inanimados ou de seres vivos, e muito menos o homem dotado de uma alma imortal. E não só o homem em geral, mas cada um de nós, em particular, titular de dons e talentos específicos que deve ordenadamente desenvolver e fazer frutificar...


As normas gerais, como princípios de ordem para o género humano e, por conseguinte para cada um de nós, encontram-se resumidos nos Dez Mandamentos. Cumpri-los é o primeiro elemento ordenador da nossa vida. Não os cumprir é a desordem, ou antes a fonte de todas as desordens... A infracção ou transgressão de leis superiores a que chamamos pecado...


O Catecismo da Igreja Católica diz, em resumo, que “Os Dez Mandamentos fazem parte da revelação de Deus. Ao mesmo tempo que nos ensinam a verdadeira humanidade do homem. Põem em relevo os deveres essenciais e, por conseguinte, indirectamente, os direitos fundamentais inerentes à natureza da pessoa humana. O Decálogo encerra uma expressão privilegiada da «lei natural» “.

Ordem pessoal e previsão
Quando não há ordem na mente, acabamos sempre por escolher o que mais nos apetece, ou o que mais chama a nossa atenção e, assim, é natural que em bastantes ocasiões não coincidam com o que devemos fazer nesse momento. Isto gera habitualmente perdas de tempo e, muitas vezes, de paz e de serenidade...



A ordem é um factor multiplicador do tempo. Por isso vale a pena parar e reflectir: Procurar detectar os aspectos importantes, concretizá-los e estabelecer uma ordem de prioridades adequada.




Ver se o que fazemos é o que realmente temos de fazer nós, ou se não seria mais útil que, nessas circunstâncias, outros o fizessem.


Se sabemos cortar a tempo tarefas que, sendo menos importantes, nos podem levar a deixar outras mais urgentes de forma sistemática.


Pensar se poderemos mudar algumas ocupações menos relevantes para horas menos apertadas, por exemplo, para momentos que não sejam cruciais para atender a família, para podermos estudar ou trabalhar com mais tranquilidade e eficácia.


Maria Helena H. Marques

Prof.ª do Ensino Secundário