sexta-feira, 28 de março de 2014

A ideologia do género: uma nova mentira educacional

Está a circular no Senado brasileiro um projecto de lei do Senador Vital do Rêgo de grande perigo para a família e para a educação brasileira. As intenções do político paraibano é colocar no Plano Nacional de Educação uma directriz que obrigue as nossas escolas a ensinarem a ideologia de género. Segundo esta doutrina, que vem sendo semeada de forma perniciosa já faz bastantes anos pela Fundação Ford na Europa e nos EUA, o sexo biológico não determinaria nenhuma função específica de masculinidade ou feminilidade e consequentemente cada cidadão poderia escolher qualquer papel social que mais lhe agrade, assim como sua orientação sexual (no fundo, poderia buscar gratificações sexuais do jeito que queira e com queira). O sexo seria um mero diferencial anatômico e estaria desvinculado do “género” – viver como mulher ou como homem -: cada um gozaria de autonomia para optar e mudar a forma de viver quando e como quisesse.

Esta aberração faz lembrar um episódio tragicómico acontecido nos países nórdicos da Europa, não faz muito. Um casal passeava pela rua com seu carrinho de bebê orgulhoso e feliz desse novo rebento familiar quando se deparou com um velho amigo vizinho. A reação diante do inesperado não podia ter sido mais normal e explosiva: “Parabéns! Então já nasceu! Que felicidade! Menino ou menina?”. A resposta, porém, essa sim foi surpreendente: “Não sabemos ainda! O bebé é que escolherá quando crescer...”. Como vemos, para quem goza ainda de certa normalidade intelectual e psicológica, o facto acima não pode deixar de chocar. Querer desprezar as evidências que a natureza nos oferece parece mesmo um filme de ficção científica, na qual os novos seres desconhecidos gozam de outra natureza.

Efectivamente, foi por essa via que nasceu a ideologia de género nos anos 60, quando as teorias marxistas permeavam a nova cultura modernista. Segundo elas, era preciso combater e destruir a natureza que impõe a “luta de classes sexuais”. A mulher não poderia mais continuar submissa ao homem e por isso era preciso ser criado uma nova “raça” humana, na qual se pudesse gozar realmente dos mesmos direitos e oportunidades. À primeira vista, a intenção era boa, uma vez que a mulher na prática tinha um tratamento bastante inferiorizado em muitos âmbitos, tornando-a vítima de preconceitos, injustiças e políticas segregadoras. Por outro lado, os meios que se utilizaram para conseguir esses ideais mais humanitários demonstraram-se depois ser mais nocivos do que as políticas que se combatiam.

Essa é sempre a estratégia que o “mal” utiliza para conseguir recuperar seus “foros perdidos”. Aproveitando-se de alguma anomalia social chamativa – no nosso caso, as políticas culturais machistas – aparece como anjo da luz, salvador dos fracos, propondo uma solução à primeira vista mais interessante, mais prazerosa, mais libertadora, mais “humanitária” para a felicidade de todos os homens. Depois, na prática, se verifica um verdadeiro engodo. Perguntemo-nos, então: O que será que está por trás da ideologia de género, com a desculpa de conquistas feministas justas? A resposta é alarmante: a destruição da família, seu grande objectivo desde sempre. Destruindo-se a família, destrói-se a perpetuação da pessoa humana. E por que se quer a destruição da família? A resposta a isto nos levaria longe... Mas tentemos entender como isso se dá na realidade.

Os estrategas do mal, inicialmente, procuram confundir as pessoas colocando no mesmo âmbito algumas igualdades entre os homens e mulheres – mesma inteligência, mesma dignidade, mesmos direitos e oportunidades - com algumas diferenças claras do ponto de vista científico –estruturas cerebrais diferentes e com funcionamentos diversos, sistemas hormonais diferentes, afectividade diferente, sentidos externos e internos diferentes, tendências lúdicas diferentes, etc-. Num segundo momento, depois dessa confusão nos sexos, provocam o orgulho humano a requerer uma liberdade absoluta para escolher o género e o prazer que mais lhe convier, “vendendo” de forma maliciosa o prazer sexual como um fim em si mesmo e um direito, totalmente desvinculado dos âmbitos procriativos e unitivos, como se fosse um brinquedo. À primeira vista, parece um avanço na liberdade humana, pois a desvincula do sacrifício da verdade e do bem, como se as escolhas não determinassem o futuro das pessoas. Estas, sendo “ensinadas” nessa nova pedagogia, acreditam que é possível alcançar a felicidade sem esforço, sem sacrifício, sem dor e, portanto, sem amor. Aos poucos os seres humanos vão deixando-se levar por esse feitiço egoísta que os anestesiam para a doação e compromissos sólidos. Convertem-se, sem perceber, para uma vida sem sentido e finalidade. O que os motiva a viver agora é aproveitar o momento presente, consumir coisas e pessoas, perseguir o bem-estar material, alcançar todos os tipos de satisfações sensíveis que as novas tecnologias e laboratórios farmacêuticos lhes possam proporcionar. No final deste processo, quando chegam em geral em torno dos 30 anos, se sentem como pessoas egoístas, solitárias, fracas, animalizadas e, consequentemente, sofrendo muito mais do que antes, pois não nasceram para serem animais irracionais e antissociais, mas pessoas humanas que amam e são amadas. Esse sofrimento não é só físico, mas principalmente psicológico e espiritual. A pessoa humana perde a esperança nela mesma – não tem forças para mais nada! – e como consequência na esperança na própria realização do projecto de homem que é ser feliz vivendo um amor compartilhado. O objetivo final do “mal” foi alcançado: a destruição da pessoa, da família, da liberdade e felicidade humanas.

Diante deste quadro triste que pintamos anteriormente, meu instinto de sobrevivência somado à minha paixão pela defesa da vida e da dignidade humana me obrigam a arregaçar as mangas e a combater a aprovação dessa lei injusta aludida no início. Como educador não posso permitir que a mentira seja espalhada pelo próprio Ministério da Educação que deveria semear e regar a verdade. Infelizmente, quando analisamos as pessoas que comandam a educação deste país, percebemos quase sempre que a grande maioria delas não entende muito de educação e sim de “manipulação” e “jogo político”. Seus interesses estão muito longe das reais necessidades educativas de nossas crianças. Por isso, talvez, não se importem muito com as consequências nefastas que certas políticas públicas possam provocar, como esta em questão. Desde que continuem recebendo apoio político e financeiro de certos organismos internacionais, qualquer meio é justificado. O problema é que elas também serão vítimas um dia, como se tem verificado em factos recentes, com a prisão de vários governantes “mensaleiros”.

Concluo dizendo que é preciso afogar o mal que estão querendo disseminar em nossas escolas com a abundância de luz e de verdade. É preciso formar muito bem e desde cedo as nossas crianças ensinando-lhes que o homem e a mulher são iguais numa série de aspectos metafísicos, antropológicos e de cidadania, mas também são muito diferentes em vários aspectos biológicos, psicológicos e espirituais. É preciso que descubram e se encantem com a beleza das qualidades inatas próprias de cada sexo e como elas podem ser potencializadas quando existe um trabalho sério de educação personalizada. É importante também que saibam que existem muitos outros aspectos, tanto da masculinidade como da feminilidade, que devem ser ensinados e estimulados na família e na escola. Por fim, que o homem e a mulher não precisam viver, como acreditam os ideólogos do género, em estado de guerra ou de competição, mas cada um tem que contribuir com seus dons e talentos próprios para uma maior harmonia familiar e social. Ambos devem se complementar e nessa simbiose existencial cada um colaborar na construção de sua própria identidade pessoal, de forma a consolidar a identidade da família, célula básica de toda sociedade.

João Malheiro é doutor em Educação pela UFRJ e diretor do Centro Cultural e Universitário de Botafogo - www.ccub.org.br. É autor do livro "A Alma da Escola do Século XXI", palestrante sobre o tema da educação e mantém o blog Escola de Sagres (escoladesagres.org). Pesquisador do Grupo de Estudo sobre Ética na Educação da UFRJ

E mail:malheiro.com@gmail.com
Publicado no Portal da Família em 16/03/2014

Pesquisador do Grupo de Estudo sobre Ética na Educação da UFRJ

quinta-feira, 6 de março de 2014

Educar para a amizade


Não podemos viver sem amigos.

« A  amizade é uma virtude, e, além do mais, é o que há de mais necessário para a vida» segundo Aristóteles.

Na pobreza e nos demais infortúnios os amigos, costumam ser considerados como o único refúgio.

A amizade, por outro lado não é característica exclusiva de determinada idade. Os jovens precisam dela para evitar o erro, pois um bom amigo é um bom conselheiro. Os idosos como partilha e inter-ajuda das dificuldades e limitações e dos momentos bons que a vida lhes reserva. Os que estão na flor da idade, para as acções nobres.

A amizade é fundamental para todos os homens, ricos e pobres, grandes ou pequenos, cultos ou incultos.

Em suma, a amizade é necessária para fazer o bem, para conviver com homens bons, para adquirir experiência e sabedoria e para receber ajuda nas necessidades.

É necessário cultivar a amizade, educar as novas gerações para a vida de amizade. Deste modo, não só melhorarão as pessoas uma por uma; mas a própria sociedade, porque a amizade é «germe» e raiz da vida social humana, mas não de uma vida social impessoal, segundo padrões abstractos, como a que reina na nossa sociedade massificada, e sim de uma vida pessoal, íntima, vital e criadora.

O comportamento altruísta obriga-nos a contrariar muitas inclinações e caprichos pessoais. Exige, com frequência, que saibamos prescindir de coisas de que «gostamos» ou daquilo que nos «apetece» para atender ao que o amigo precisa de nós.

Os pais costumam preocupar-se tarde de mais com as amizades dos seus filhos. Não percebem, que o desenvolvimento da conduta sociável durante a infância é uma preparação para as relações pessoais de amizade na adolescência.

Atitudes como a preocupação pelos outros, a ajuda mútua, a compreensão e o respeito, podem ser cultivadas no dia – a - dia desde a primeira infância, por ocasião das experiências sociais vividas em casa.

Uma das causas dessa falta de preocupação educativa no que diz respeito à amizade é a  trivialização  do próprio conceito de amizade nos dias de hoje. A amizade vem sendo entendida, cada vez mais, como uma relação de conveniência : quem tem amigos é mais influente, tem mais possibilidades de conseguir o que deseja pelo caminho mais curto, mesmo que isso signifique ser injusto com outras pessoas. Por meio dessas «amizades» fazem-se bons negócios, ganham-se concursos e obtêm-se empregos.

Estamos a assistir, em consequência, a um processo de desvalorização, do conceito de amizade. As pessoas pensam que, para terem muitos amigos, têm de dar razão aos outros sistematicamente, usar de bajulação e incentivar a vaidade alheia. Pelo menos é o que se lê em certos livros sobre «como fazer amigos» Parte-se do princípio de que ser sincero e honesto com os outros é um obstáculo à amizade.

Os verdadeiros amigos são amigos bons, isto é, são sinceros, leais, respeitosos e generosos, uns com os outros. Ora, estes hábitos operativos bons não se desenvolvem na infância e na adolescência sem o estímulo, a exigência e o bom exemplo dos pais e dos professores.

Por conseguinte, a ajuda educativa neste campo é uma necessidade.

Os filhos precisam de uma ajuda educativa, em primeiro lugar para aprenderem a ser pessoas sociáveis, que conheçam a difícil arte de conviver com todos, mesmo com os que são diferentes e pensam de outro modo. Isso exige o desenvolvimento progressivo de qualidades como a compreensão e a tolerância.

Extraído de "Educar para a Amizade" Geraldo Castillo
Professor da Universidade de Navarra  

A Educação, em momentos determinantes da História…

          No século IV, antes de Cristo (384 – 322), Aristóteles, filósofo grego, recomendava uma série de diretrizes para a educação moral das crianças pois, de outro modo, converter-se-iam em seres rebeldes e indisciplinados. Comparava a educação ética com o treino físico, e explicava que do mesmo modo que nos vamos tornando fortes e ágeis a fazer as coisas que requerem esforço e habilidade, também nos tornamos melhores, ao realizar atos bons. Habituar-se a um bom comportamento faz-nos ser bons, ao mesmo tempo que nos capacita para compreender as vantagens e os motivos da bondade moral. A realização de atos operativos bons, mobiliza a vontade, e impulsiona o controle sobre as inércias e más inclinações – realidade permanente da natureza humana – ao mesmo tempo que vai fazendo com que sejamos seres humanos livres e capazes.

      Estes princípios norteadores foram inquestionáveis durante séculos em grande parte dos países ocidentais, até ao aparecimento e intervenção do filósofo e ilustre pedagogo Jean – Jacques Rousseau; escrevia o pensador francês: “quando penso num rapazinho de dez ou doze anos, são, forte e bem constituído, apenas nascem na minha mente pensamentos agradáveis. Imagino-o brilhante, vigoroso, despreocupado, absorto no presente, feliz com a sua vitalidade. O único hábito que se lhe deveria permitir adquirir era o de não contrair nenhum; prepará-lo para o reinado da liberdade e exercício das suas possibilidades...”

      Rousseau considerava a natureza do dito rapazinho originariamente boa e livre de pecado. Segundo ele, a educação deveria proporcionar terreno adequado onde florescer a sua inata boa natureza. Deste modo, a moral não devia partir de conjuntos de regras externas nem ser socialmente organizada, o que suporia uma afronta ao direito de desenvolver-se com total liberdade. Uma motivação aos seus sentimentos de generosidade, seria suficiente para avançar e flutuar conduzido pela sua amigável natureza; afirmava que uma criança jamais poderá ser acusada de maldade, porque considerava que a má ação depende da má intenção, e isso, “a criança nunca terá”.

      Não temos dúvidas de que as ideias de Rousseau contribuíram bastante para tornar a educação mais humana, numa época de excessiva dureza e inflexibilidade, mas ele próprio ficaria atualmente espantado diante da permissividade reinante nos tempos atuais, devida em grande medida ao peso atribuído aos seus pontos de vista e que tanto influenciaram algumas correntes da pedagogia.

      Com os dados objetivos de que atualmente dispomos, e fazendo uma sucinta análise comparativa aos legados de Rousseau e Aristóteles avalizados pela experiência histórica, deixamo-nos levar pelo senso comum que se inclina a favor de Aristóteles, embora seja Rousseau quem tem dominado dum modo poderoso o pensamento de muitos teóricos da educação. O progressismo que herdou o seu pensamento recusou frequentemente a importância de questões simples e fundamentais como o esforço pessoal, a prática habitual de atos meritórios ou a formação do caráter. O clima tradicional de ordem, com as suas regras e exigências e a insistência nas classificações, foi depreciado como ultrapassado e deprimente moralidade...

      Sobrevalorizando a criatividade e a bondade inata das crianças, foi-se desprezando a sábia e antiga responsabilidade de submetê-las a disciplina, de habituá-las na prática do bem e a movimentar-se com sentido de responsabilidade.

      Foram muitos anos de desrespeito por princípios e valores considerados fundamentais em todos os ciclos da história da humanidade, apoiado na luta contra uma tradição sem sentido que se acusava de excessiva e teorizante. Verificamos que a ultrapassagem de Aristóteles criou muitos problemas bem visíveis nos tempos atuais, dos que destacamos níveis de violência insuspeitados e um fracasso escolar jamais imaginado. Esta dura realidade parece querer dizer-nos que levámos demasiado a sério aqueles que pensavam que o esforço diário pela prática do bem e da virtude, esmagar-nos-ia a todos e de modo especial às novas gerações.

      Sem deixar de considerar como positiva a evolução pedagógica que se alcançou com novas aquisições na perceção do eu, afirmação das diferenças de personalidade e de caminhos, vamos de novo ter à senda das referências essenciais que são, em qualquer circunstância, capazes de conduzir o ser humano ao desenvolvimento harmonioso da sua personalidade e à maturidade do seu ser. Mas reconhecemos também que isto não é recuperável simplesmente através de leis, nem de montantes extraordinários no apoio à educação. Talvez o seja sim, se voltarmos a tomar a sério o que temos vindo a desdenhar e não nos poupemos ao esforço diário para retificar, pouco a pouco, o rumo que com clareza meridiana reconhecemos agora, ser equivocado.

      E assim, chegamos inevitavelmente, mais uma vez, aos conceitos de autoridade, liberdade e responsabilidade na família, educação através de auto – disciplina e do respeito pelos valores éticos fundamentais inscritos desde sempre no coração da humanidade.

      Tinha razão A. Gaisan em V. Humanos, quando afirmava: “Tudo o que é humano pode ser teu e meu, o bom e o mau, a virtude e o vício. Se outros sim… porque tu e eu não?...”

 

                                                                                                  Maria Helena Marques

                                                                                                                      Prof.ª Ensino Secundário